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Raquel Varela fixando a objectiva com olhar profundo.

 

Anda um espectro (há que fazer a apologia do cliché) pelo Portugal – o espectro da Raquel Varela. Diz que é doutora do ISCTE e percorre com alguma facilidade os meios de comunicação, poluindo-nos a mente simples com os seus devaneios complicados. Desta feita, a Doutora Varela (isto assim dá logo ares de Aerius e Paracetamol) foi amavelmente convidada pela Fátima Campos Ferreira para o grande debate da nação que é o Prós e Contras, consigo, todas as semanas. Lá no Prós e Contas, além da Doutora Varela, havia um rapagão com olho para o negócio que vende t-shirts para «países estranhos» como a Inglaterra (ninguém lhe perguntou a origem de tanta estranheza, para grande pesar deste vosso que vos escreve). Mal compreendeu a Doutora Varela que o rapaz não era um intelectual com vasta obra publicada no estrangeiro, mas sim um vil burguês, mandou que se interrompesse o bailado. Era importante, pelo menos para ela, esclarecer umas coisas. Então perguntou rapidamente ao Martim, tratando-o por tu, com uma proximidade que afronta, se por acaso as camisolinhas deles eram produzidas na China por gente a ganhar dois dólares por dia. O Martim disse que por acaso não, que era cá na terra, no nosso Portugal. Evidentemente, isso não bastava. A Doutora Varela lançou logo a questão importante: e os operários fabris, ganham salário mínimo? É que a organização do não-sei-quê diz que tal. O rapaz arrumou com o assunto e seguiu-se choradeira no blogue.

Agora que já alongámos o espírito e nos permitimos umas malandrices, vamos passar a proporcionar ao leitor curioso uma análise sólida e fundamentada da questão. Há três eixos (porque nós vemos a três dimensões – é importante para a compreensão da realidade) relevantes aqui. O primeiro prende-se com o valor do Martim Neves. O segundo prende-se com a razão da Raquel Varela. O terceiro prende-se com a desonestidade da Raquel Varela. Por partes. Um, dois...

 

Marie Antoinette.

 

Eu só sei do Martim Neves aquilo que as pessoas que viram o Prós e Contras sabem: é um miúdo de 16 anos que tinha uma coisa que gostava de fazer (desenhar trapinhos) e teve a ideia de arranjar ali uma ocupação, um negócio. Felizmente, e apesar da idade, teve algum sucesso. As roupas ganharam compradores, invadiram dois ou três mercados internacionais e o barquinho prospera. Diz que os estudos vão indo e, pelo que percebi, ainda patrocina um desportista qualquer. No topo de tudo, recorre a uma fábrica portuguesa para a confecção da mercadoria, mantendo tudo em família, como muito compete ao cidadão empenhado e patriota. O Martim, independente do que nos diga a história dos conflitos sociais, está a fazer, tudo leva a crer, algo de bom e de muito valor: investe numa ambição sua, não tem ar de explorar miseráveis e, à falta de prova em contrário, é respeitador da lei e da norma. 

No que disse ao Martim Neves, Raquel Varela tem razão apenas numa coisa: o salário mínimo é baixo. Também é por isso que se chama salário mínimo – nunca, em momento algum o acharemos bom. Que se compare com facilidade o salário mínimo português com os dois dólares diários do sudeste asiático, já me parece um pedacinho desonesto, mas deixemos isso para o próximo parágrafo. O que é importante compreender é que o facto de ganhar um salário mínimo ser melhor que não ganhar salário nenhum não invalida que o valor seja baixo. A melhor hipótese nem sempre é uma boa hipótese, enfim. De qualquer forma, a discussão sobre o salário mínimo, ainda que importante, não foi pertinente. Mais não fosse por uma razão simples: é que na verdade ninguém ali tinha a capacidade de assegurar que quem produzia as tais roupinhas estava nessa situação. Mas de novo a terceira parte deste proveitoso artigo está a saltar-nos em frente. Dêmos-lhe, pois, espaço.

 

Bertrand Russel, enquanto assistia ao Prós e Contras.

 

A desonestidade de Raquel Varela no caso em questão é – utilizemos uma palavra catita – multidimensional. Torna-se inclusivamente difícil organizar o pensamento perante tudo isto. Para facilitar, vamos saltar por cima do tom acusatório com que lançou as perguntas. Vamos também contornar a insistência em dizer que são chineses a fazer a roupa, quando todos sabemos que foram portugueses. Vamos ainda esquecer que colocou quase no mesmo patamar os salários abaixo do limiar da pobreza e o salário mínimo português. Vamos apenas ao essencial: Raquel Varela questionou a moralidade da actividade profissional de Martim com base na possibilidade de haver, devido a ela, pessoas a receberem o salário mínimo. Isto, só assim, sequinho, sem comentários sobre as viagens e as bolsas de Raquel Varela, já nos chega para uma boa conversa. Ora vejamos. Em primeiro lugar, e porque isto é o mais simples, mais directo, mais singelo, é preciso dizer que o salário mínimo, ao existir, traz como consequência natural que algumas pessoas o recebam. Se ninguém recebesse o salário mínimo, isso significaria que o valor era tão baixo que nem os porcos exploradores o pagariam. O salário mínimo, digamos assim, está lá mesmo para «ser usado». Tem como objectivo vedar situações de exploração, entendendo-se, por isso, que pagá-lo não constitui exploração. Claro que podemos divergir quanto a isso, mas são as regras da sociedade. Se achamos que estão mal, devemos fazer-nos ouvir junto daqueles que as podem mudar e não junto daqueles que as aplicam. Espero que compreendam. Em segundo lugar, mesmo que se ache que o salário mínimo é pouco digno, não se pode atacar o Martim (ou qualquer pessoa na sua circunstância) por haver pessoas em fábricas a recebê-lo. O Martim muito provavelmente contratou um serviço a uma outra empresa e é nessa empresa que se fazem as negociações salariais. Considerar que o Martim (ou qualquer pessoa na sua circunstância) tem o dever de, antes de contratar a empresa, saber o que vai lá dentro é de uma alienação (palavras caras) tremenda. Porque neste caso poderá parecer até simples (ainda que não o seja necessariamente), generalizar este raciocínio tornaria a vida habitual impraticável. Antes de contratarmos uma operadora de telemóveis, teríamos de ler detalhados recibos de vencimento dos últimos anos. Para comprarmos um móvel, teríamos de descobrir quem recolheu a madeira, a trabalhou e transportou e saber, depois, se todos tinham tido condições de trabalho boas. Antes de comprarmos um bonito lenço como o que Raquel Varela usava durante o programa do serviço público, teríamos de saber se a lojista tinha um bom salário, e se a transportadora tinha uma boa política de férias e se a fábrica era portuguesa, ou chinesa, ou vietnamita. Por sabermos que tudo isto é impraticável, criamos leis e instituições – algo que Raquel Varela deverá saber, dado que é Doutora do ISCTE. E com base nessas leis e instituições vamos vivendo e deixando viver, arranjando maneiras mais ou menos eficazes de fazer cumprir o estabelecido. O Martim provavelmente nem sabe quanto ganham os trabalhadores na fábrica que ele contratou. Mas não tem de saber. Da mesma forma que a Raquel Varela não tem de saber quanto ganhou quem produziu o seu lindo lenço. Ainda assim, teria ficado bem a Fátima Campos Ferreira, excelsa moderadora, perguntar. A bem do serviço público. E viva a revolução.

 

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publicado às 23:45





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