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Matraquilhos

por Tiago Moreira Ramalho, em 27.05.13

O sofrimento dos últimos dias tem-me lembrado o meu desprezo fundo por esse corolário da civilização do espectáculo que é o futebol. Em torno de mim, que saltito airoso por entre as derrotas e vitórias de uns e outros, e que só gastei alguma vez dinheiro num jornal desportivo porque o Record, aqui há uns anos, tinha um monopólio do Benfica em fascículos que muito atraiu a família; em torno de mim, dizia, sucedem-se as típicas fúrias alegres ou tristes, as babinhas raivosas espumadas nas redes sociais, a choradeira indómita de quem gosta mesmo muito daquele clube, pá. Da observação dessas expressões estranhas e a meu ver excêntricas, porque a bitola do banal somos nós que a definimos (e à nossa imagem, de preferência), nasceu-me, contudo, um franco interesse no grafismo colorido desta manifestação do absurdo. Porque entendamo-nos: nada daquilo faz qualquer sentido (espero que não me levem a mal). O adepto típico pertence a um clube (pagam e tudo) com o qual nem tem especial relação de proximidade (o bom serrano é com facilidade um benfiquista ferrenho) e sofre vigorosamente com as peripécias de uma equipa que vive numa espécie de estratosfera, longe de todos nós. Numa base semanal, o adepto apaixonado gasta algumas dezenas ou centenas de euros para assistir aos jogos, acompanha com cuidado as tabelas classificativas, contabiliza rigorosamente os golos marcados e sofridos e faz ainda contas até ao final da temporada para ver se dá. Se não dá, o adepto chora, grita, esperneia porque não deu; queixa-te das táticas e das técnicas e das estratégias; vilipendia os árbitros, os treinadores, os presidentes e os jogadores; maldiz o mundo, a vida e diz ao filho para se esforçar mais nos treinos, para depois ir para a equipa e ganhar isto tudo, porque ele, aquele rapaz, é que vai ser o próximo Eusébio, oiçam o que vos digo. Isto durante cerca de uma semana, talvez duas. Depois tudo acalma, a vida habitual regressa e começa a pensar-se na época seguinte. Como se estivéssemos todos lá na montanha a ver Sísifo mexer o pedregulho. Há aqui uma bonita (quem sabe útil) metáfora para esta brincadeira. 

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publicado às 11:40


Coisas importantes

por Bruno Vieira Amaral, em 25.04.13

O futebol não é só futebol. Há um ano, o presidente do Bayern de Munique, o ex-jogador Uli Hoeness, confrontado com as dívidas fiscais dos clubes espanhóis, atacou com veemência, gritando no seu melhor português: “Isto é impensável. Nós damos-lhes milhões de euros para os tirar da merda e depois os clubes não pagam as dívidas.” Hoeness referia-se aos milhões que os alemães pagam aos preguiçosos do Sul e que estes malandros depois usam para pagar salários ao Messi e ao Ronaldo, o que se compreende, mas também ao Alexis Sanchéz e ao Nelson Oliveira, o que já devia causar verdadeira indignação. Esta semana foi a altura de pôr tudo em pratos limpos. Os dois maiores clubes alemães enfrentavam os seus homólogos espanhóis. Os primeiros são a expressão de um campeonato saudável e burguês, com estádios cheios, clubes com dinheiro e salários em dia. Os outros dois são os fidalgos gordos de uma Liga cada vez mais depauperada e desigual, de estádios vazios e clubes cheios de dívidas. O resultado não podia ter corrido melhor a Frau Merkel. Duas goleadas em território germânico em que os colossos ibéricos foram atropelados pela vitalidade germânica guiada por esses poster-boys da vontade indómita dos arianos que são Schweinsteiger e Götze (o Freitas Lobo esteve bem ao dizer que o Bayern parece que joga com botas da tropa, o que mesmo que não faça justiça à capacidade técnica dos jogadores é bom para início de conversa; eu diria que é ballet com botas cardadas, mas isso sou eu, que escrevo melhor que o Freitas Lobo). Só que, nesta semana de todas as humilhações para Castela e Catalunha, soube-se que o sr. Hoeness, o tal que deplorava os milhões pagos pelos alemães para tirar os espanhóis da merda, está sob investigação por fuga ao fisco, um facto que até pode vir a prejudicar Angela Merkel nas eleições de Setembro. O futebol não é só futebol. Os espanhóis entraram em depressão com as goleadas mas gostaram de ver o moralismo verbal de Hoeness ser derrotado pelas suas acções. Os alemães ficaram eufóricos com os resultados e um pouco envergonhados com esta história do proprietário de uma fábrica de salsichas. Claro que a euforia alemã é muito peculiar e tem a capacidade de devolver o futebol ao lugar onde é apenas futebol. Jupp Heynckes, treinador do Bayern de Munique, disse a uma revista inglesa que a família deu pouca importância à goleada ao Barcelona: “Esperava que falassem do jogo, mas ouvi reclamações sobre a professora da escola do filho de um amigo, sobre a drenagem do rio Elba e a análise de um vinho.” Contra a dramatização operática dos espanhóis, contra a hipocrisia do senhor Hoeness, até contra a beleza blindada do futebol alemão, a análise de um vinho e a drenagem do rio Elba parecem-me as coisas mais belas e mais autênticas do mundo.

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publicado às 12:18





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