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Querias

por Frederico V Gama, em 19.05.13

Imagem do veículo em que o doutor Jorge Moreira 

da Silva chegou a Lisboa.

 

É com prazer (estranho e exótico, mas algum) que anunciamos que o doutor Jorge Moreira da Silva acaba de aterrar no aeroporto de Lisboa vindo de Marte: “Estamos todos responsabilizados quanto à necessidade de encontrar propostas alternativas na eventualidade de discordarmos delas.”

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publicado às 00:50


Coisas que não mudam

por Tiago Moreira Ramalho, em 17.05.13

David Hume a seguir ao banho.


Os economistas acreditam que «mais é melhor». Compreende-se: de um modo geral, não será difícil assumir que uma pessoa vai gostar da ideia de ter mais coisas. Consumo, e com ele utilidade, é felicidade, já dizia o gorducho Hume. No entanto, se a ideia parece apelativa num quadro de pobreza generalizada, em que o «mais» significa tantas vezes sobreviver mais uma semana à conta de umas batatas, não será difícil que a ideia gere dúvidas quando a sobrevivência se torna menos preocupante e o objectivo passa a ser aumentar o conforto. E aí é quando a porca, perdoe-se-nos a deriva folclórica, torce o rabo. Porque o «mais» que é «melhor» não é, como diria o Sr. Presidente da República, grátis. O «mais» implica geralmente trabalhar mais. Mostraria um gráfico ao leitor, mas em vez disso remeto-o para um já feito por pessoas razoavelmente competentes. Quando numa sociedade se consegue com alguma eficácia resolver problemas de miséria extrema, além de criar sistemas de protecção na doença e tantos outros, os cidadãos entram naquilo a que, com alguma pompa, se poderá chamar um estádio pós-materialista. A mente do cidadão comum deixa de ficar conspurcadinha com as minudências da vida terrena e começa-se a falar em casamento homossexual. Ademais, o cidadão passa a não desperdiçar metade do seu dia a desempenhar tarefas que o fazem infeliz em troca dos bens que lhe permitem a existência (infeliz; não é curioso?), mas sim a ocupar, com alguma leveza, o seu dia a desenvolver actividades que o estimulam. Marxianamente, o cidadão passa a fazer do trabalho uma manifestação pública do seu Eu (entrámos nas maiúsculas).

 

 

Marx a fumar um grande charuto.

 

Se o simples enriquecimento das sociedades é só por si um fenómeno bem catita, mais catita ainda poderá ser a transformação que sugere Jerry Brito em dois posts do The Umlaüt. Em tempos, uma mansão com exércitos de criados, estábulos e restante parafernália de riqueza foi um ideal de felicidade largamente partilhado. Hoje parece bastante provável que a partilha não seja já tão pesada. Mais do que isso, encara-se com manifesta desconfiança o esbanjamento de dinheiro em bens supérfluos (pense-se, a título de exemplo cá na terra, nas reacções à campanha publicitária da Samsung: a pobrezinha da Pépa só queria mesmo uma mala daquelas que dão com tudo). E isto poderá parecer, como pareceu ao Jerry Brito, indiciador de uma nova forma de vida: uma que nega o sagrado princípio de que mais é melhor. A frugalidade, o desprendimento, a moderação. Eu não vejo a coisa assim. A natureza é uma safada reaccionária, e a nossa em particular é um belíssimo exemplar disso mesmo. Podemos dar um cada vez maior valor à realização pessoal e ao lazer, estando naturalmente dispostos a abdicar de maiores remunerações (e, portanto, daquilo que o dinheiro compra). Mas isto é muito diferente de encarar a «vida simples» como um fim. Mudamos (como sempre) alguma coisa, mas no fundo tudo fica na mesma. Descansem, portanto, os economistas – poderão ainda durante muitos e bons anos expressar os seus Eus (acabaram-se as maiúsculas).

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publicado às 23:44


A bondade acima das personagens [2]

por Tiago Moreira Ramalho, em 16.05.13

Lembro-me que quando o Manuel António Pina morreu, muitos diziam que era bom. Mesmo pessoas que não o conheciam diziam que era um homem bom. Suspeitavam, enfim. A capa da LER de 2011 tinha, por baixo da fotografia dele, em fundo amarelo, «a bondade acima da poesia». Esta coisa importa. Se a obra tem importância, se vive de si e por si, uma relação afectuosa com o seu criador não traz que benefícios. Por uma razão simples: a bondade do criador, a sua humanidade, transparece absolutamente no texto, do corpo do trabalho. A entidade criada é feita à imagem moral do criador. E poderemos entrar em largas discussões sobre o objecto estético, mas pró diabo (é esta a minha abertura ao diálogo) quem defender que o valor moral da obra não é, também ele, portador de beleza. O belo e o bom não têm proximidades meramente ortográficas. A estética é, também, uma ética. E a obra de um autor bom tornar-se-á, se tudo correr como se quer, melhor.

Leio o Bruno Vieira Amaral desde que o descobri nos blogues e no jornal i. Acho-o um homem bom. No que o Bruno escreve, e tenho o privilégio de partilhar apartamento blogosférico com ele há uns anos, estimulam-me igualmente os desafios estético e moral. Podemos ver isso num texto antigo, como o Lavandaria Vaticano, um dos meus preferidos de todos os que ele escreveu (talvez porque me tenha encontrado com ele no combóio um desses dias e o tenhamos discutido levemente; levou-lhe 3 horas a escrever), ou num dos mais recentes, como o Because Our Fathers Lied. De forma ainda mais intensa, pude assistir a isso hoje, quando apresentou o seu livro na Bertrand Picoas, e fez uma exposição sublime sobre isso das pesonagens em ficção. O julgamento feito por mim (ainda por cima com um epíteto como «sublime», destinado geralmente à expressão do deslumbramento mais insípido) poderá deixar desconfiança. Nada que possamos resolver, infelizmente, porque não houve gravação (ainda que o Bruno tenha a coisa em papel). O Bruno explicou, para deleite de quem o ouvisse, o que entendia da matéria. A personagem de ficção – seja boa ou má – é uma entidade moral e o jogo de identificação e transformação do leitor quando por ela passa é, também ele, um jogo moral. Poderei ser abusivo na leitura (consequências do statu quo e assim), mas a interpretação é sempre uma leitura pessoal.

Claro que tudo isto se espalha pelo livro Guia Para 50 Personagens Da Ficção Portuguesa. Lidas algumas análises a algumas personagens, percebe-se o que faz o Bruno. Não há ali uma análise literária. O Bruno borrifa-se, felizmente, para a «construção da personagem». Subentende-se que a construção é competente para que haja a inclusão, mas a análise é puramente desligada dessa vertente técnica, desse lado artesanal. O Bruno olha para a Quina como se a Quina fosse de facto uma mulher, gente. E a Quina vê-se, enquanto espécie de ser humano, escrutinada pelo Bruno, como se estivéssemos ali os dois, ele que escreveu e eu que o leio, numa quadrilhice de aldeia a comentar a sô dona da casa da Vessada. Blimunda e Baltasar vêem o seu amor analisado e, a partir daí, é o próprio Amor que é analisado. O Raposão, e talvez este seja o caso mais paradigmático, é um malandro que acaba lixado porque «Deus não dorme».  O Bruno transforma todas estas abstracções em gente e, por consequência, em entidades morais.

Talvez não tenha sido esse o seu objectivo. Talvez não compreenda isso na totalidade. Mas isso, no fundo, é um derivado do fenómeno conhecido e sobejamente explanado aqui hoje, consigo, neste espaço de conteúdos que é o Atentado ao Pudor. O tipo é bom. Gracejei, evidentemente, no post anterior. Gostamos, por cá, de nos associar a este ou àquele referindo-nos a eles como nossos grandes amigos, possivelmente enquanto elevamos um pouco o queixo, sorrimos e, se o desgraçado está à beira, lhe damos uma boa palmadinha no ombro retesado. O meu grande amigo não é propriamente um grande amigo meu. Mas não deixa, por isso, de levar com elevadas doses (agora públicas) de admiração da minha parte. Muitos parabéns, ó Bruno.

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publicado às 23:32


A bondade acima das personagens

por Tiago Moreira Ramalho, em 16.05.13

O Metropolitano de Lisboa permite-me ver o saldo do passe do utente que passou na plataforma antes de mim. Se isto seria já de si recriminável pelas razões que, de tão evidentes, me escuso a expor, torna-se absurdo quando compreendemos que a pessoa que passou não pode, por muito que queira, ver que saldo tem – esperar, ali, é tramar a saída e ficar a ganir por um técnico da empresa ou passar à socapa num comboiinho confortável com alguém simpático. Atenção, não se pense que eu rejeito algum absurdo. Aliás, eu abraço o absurdo. É a minha forma de ir sustentando os dias (digo-o com leveza, pois). Aprendo francês, por exemplo. Perguntava-me no outro dia, no Bairro Alto, uma rapariga cujo nome nem m’alembra porque é que eu aprendia o francês se a língua está, dizia ela, a morrer. Nós também, não é?, respondi eu. Ela assustou-se muito e foi juntar-se a gente mais divertida. Por isso, sim, eu gosto muito do absurdo. Mas o absurdo tem de ser, como todas as outras coisas, doseado. E o Metropolitano de Lisboa não doseia. Exagera. Hoje, ao ver que a senhora que passou à minha frente, uma senhora de meia-idade, provavelmente mãe de família, com algum sucesso profissional, um marido carinhoso, desses modernos, tinha apenas 5.06€ no cartão Lisboa Viva, senti-me um voyeur, mais que tudo, e isso é que custa, desnecessário. Aconteceu-me isto quando voltava da apresentação do livro do Bruno Vieira Amaral, meu grande amigo (é uma expressão muito corrente; voltaremos a ela) e autor (como dizem algumas pessoas, quando se querem referir a gente que escreve livros). Agora não é altura para isso, porque pronto, mas escreverei umas linhas sobre o assunto.

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publicado às 22:41





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