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Como se dissesse água

por Rui Passos Rocha, em 06.08.13

No livro The Love Affairs of Nathaniel P., de Adelle Waldman:

 

“We see the contradictions of the social world in which Nate lives—a world in which women are outspoken and independent, and yet, confusingly, seem to wilt at the slightest sign of disinterest from a man; a world where men can delay commitment infinitely if they prefer, while women begin to feel constrained by time. […] The pleasures of this novel—its lucidity and wry humor—are mixed with the sting of recognizing the essential unfairness of the sexual mores of our moment: after years of liberated fun, many women begin to feel terribly lonely when realize they want a commitment; men, who seem to have all the power to choose, are also stuck with an unasked-for power to inflict hurt. We’ll have to keep searching for an arrangement that works better, and monogamous coupledom may not be it, Waldman suggests. But she offers no balm, no solution—and tacitly resists a culture that offers sunny advice and reassurance to women.”

 

Posso propor uma solução alternativa, posso? Que tal homens e mulheres se compreenderem um bocadinho melhor? É que, não sei, as paredes de Paris, essas cuscas, têm imensas histórias – da comuna ao pós-68 – para contar de como as relações libertinas serviram acima de tudo os homens e as mulheres bêbedas de ideais contraditórios com a sua natureza. Mais do que isso, serviram sobretudo a juventude, ávida de experiências – o que é óptimo e envolve pernas e outras coisas.

 

“She offers no balm, no solution”? Que solução querem, que quadratura do círculo procuram que não seja a pura e simples procura de confirmação de uns nos outros, uma identificação mútua tal que se superioriza à mera empatia? É curioso que quase todas as propostas, sobretudo as vindas de homens, impliquem a cedência do sexo feminino à inconstância e ao experimentalismo masculino. É óptimo não é – para nós deste lado? A libertação sexual de há uns 50 anos foi maravilhosa, sim senhor, mas cá estamos nós de novo, monógamos, em busca de uma relação estável. Bem, elas mais do que eles, arrisco, porque eles chegam lá às apalpadelas (literalmente) e elas, muitas delas pelo menos, chegam lá mais por poder argumentativo deles (e umas apalpadelas pelo meio também, que as palavras não aquecem assim tanto). E ah, quão picuinhas elas conseguem ser, dizemos nós deste lado. Picuinhas? Experimentemos ter tanto a perder quanto elas. Sim, a perder. Afectivamente. Até biologicamente.

 

Não sei quantas ruas deve um homem caminhar até ser chamado homem, como canta o Bob Dylan, mas sei que a ideia de uma relação estável só se lhe atravessa nas fuças no exacto momento em que é óbvia e materializada. Até lá há que divertir-se, mais ou menos, há que testar, concedo com gosto. Lá chegado abre-se-lhe todo um mundo de certezas que o chocam, tal é a discrepância entre elas e as dúvidas de outrora. São certezas óbvias, incontestáveis. Torna-se até, perdoem os cínicos, um sentimental como Miguel Esteves Cardoso na crónica em que diz ter-se borrado de medo de que a sua Maria João, quando reabilitada, não o amasse mais. O tipo que passava os dias com ela, escrevia prosas de uma perdição inusitada sobre ela, leu que os tumores do tipo que ela sofreu podem mudar a personalidade e sofreu por antecipação com a hipótese remotíssima de que ela o deixasse. Isto sim, é límpido como sentimento. Como é límpida a epígrafe de Saramago no Caim: “A Pilar, como se dissesse água”.

 

É claro que mesmo o poder argumentativo, e agora dirijo-me às duas ou três senhoras que me lerão, é escorregadio: Pablo Neruda viveu anos e anos com Matilde, dedicou-lhe e, mais do que isso, baseou-se nela para dezenas de poemas, e mesmo assim, quando Embaixador em Paris, não resistiu a fazer-se à sobrinha dela, ou então era a criada da casa, uma das duas foi de certeza. Mesmo assim, vejam só, Matilde esteve com ele até à morte. Também Chico Buarque, o experimentalista-mor, talvez porque a intensidade das relações o inspirava, talvez porque ao se deixar levar para inúmeras relações desse tipo não encontrou a pessoa certa, foi provavelmente o tipo que mais corações despedaçou no século XX brasileiro, logo a seguir aos fofinhos dirigentes da ditadura militar. Bom para ele, não tão bom para elas, mitológico para inúmeras porque afinal aqui está um tipo com o poder de as perceber.

 

Onde quero chegar com tanto devaneio? A muito em forma de pouco: é possível compreender os anseios e as preocupações de uma mulher, até de várias mulheres se se for Chico Buarque. É mais provável consegui-lo tendo-se a dose certa de romantismo e, sobretudo, sabendo-se claramente o que se quer. É esta a parte difícil. Do mesmo modo, parece-me avisado da parte de uma mulher saber, também ela, o que quer, e não se deixar vergar facilmente pelo poder argumentativo do outro lado, porque é bem mais provável vir a ser vítima de experimentalismo do que vir a ser alvo da rara, raríssima, prova de confirmação natural que caracteriza o duradouro, o sublime.

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publicado às 11:30


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