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Suspende agora o juízo, Husserl

por Rui Passos Rocha, em 18.06.13


Carla Dauden não vai ao Mundial de 2014. Eu não sei quanto a vossemências, mas acabo de decidir que também não vou. Vai ficar-me certamente mais barato ver a Carla Dauden no YouTube do que ir ver a bola. E perdoem-me os fanáticos, mas não há streaming que substitua uma enésima visualização deste vídeo. Estou como Pedro Mexia a contemplar a Cláudia Vieira. E fala bem inglês, por deus! Os argumentos de Carla Dauden, melhor, os argumentos que eu consegui ouvir de Carla Dauden são convincentes, derrubam a suspensão do juízo ao filósofo mais casto. Aqui está uma cidadã participativa, aparentemente segura de si, o tipo de cidadã, chamemos-lhe assim, que atrai qualquer cidadão, chamemos-lhe assim. Uma cidadã para este tempo: inteligente, participativa, irónica. O tipo de cidadã que, ah, já disse.

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publicado às 17:04


«Não humilharás»

por Tiago Moreira Ramalho, em 18.06.13

«A crise europeia arrasta-se, propaga-se e adensa-se, deixando nos cidadãos a sensação de impotência dos Estados nacionais e das instituições europeias. Esse sentimento é estrutural e parece radicado. Mas a verdade é que o enraizamento progressivo do conformismo, do desencanto e da desesperança tem sido intermitentemente marcado por episódios agudos deveras preocupantes. São sinais, meros sinais - sinais do caminho ou dos caminhos de evolução e desenvolvimento da crise. São motivos de alarme.

Lembro a ideia perigosa - perigosíssima, a mais perigosa de todas - de nomear um "comissário especial" para a Grécia. Recordo a polémica, azeda e agreste, a propósito do pepino espanhol e dos seus efeitos letais sobre os habitantes da região de Bremen. Recapitulo o desassossego trazido pela primeira - e até pela segunda - decisão do Eurogrupo quanto aos depósitos nos bancos de Chipre. Três momentos agudos da crise europeia que ilustram outros tantos riscos. O risco do paradigma imperial e da "domesticação-colonização" das periferias. O risco da racionalização e vulgarização dos argumentos populistas e dos correspondentes ressentimentos xenófobos. O risco da "nacionalização" dos patamares de confiança económica e suas consabidas consequências.

A crise exige medidas duras, medidas austeras. A crise exige mesmo de alguns povos e Estados sacrifícios que não pode nem tem de exigir de outros. Mas a crise não pode nunca justificar o atravessamento do limiar da humilhação. Ou, em linguagem menos humana e mais estatal, da subjugação. Já aqui escrevi e volto a escrever: "A história dos povos europeus - com os seus insucessos fratricidas - e a história da União Europeia - com o seu sucesso precário - ensinam, de há muito, que o mandamento mais útil é o "não humilharás"."»

 

Paulo Rangel, Público

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publicado às 14:35


O antro de corrupção

por Tiago Moreira Ramalho, em 15.06.13

Trabalhadora da ERT chorosa com o encerramento da cadeia. «Cortesia» do Guardian.

 

1. O recente encerramento da televisão nacional grega foi pretexto assaz razoável para um conjunto de reflexões sobre tudo isto. Por conveniência, comecemos por enunciar o que aconteceu. O governo grego decidiu, quase de surpresa, sem debate público ou pré-aviso razoável, encerrar a cadeia ERT (a homóloga da RTP, se quisermos). Todas as televisões e rádios públicas ficaram automaticamente sem sinal. No seguimento do sucedido, e das expectáveis manifestações de repúdio, quando não de simples perplexidade, o governo veio a terreiro (é como se diz) dar conta que a cadeia pública tinha de fechar por ser um «antro de desperdício» e porque enquanto os cidadãos gregos faziam sacrifícios, não poderia haver «vacas sagradas».

2. A forma como recebemos as notícias cá foi tristemente pobre. Digo isto porque o enfoque dado pelos jornalistas portugueses ao facto de 2500 empregos estarem em risco foi completamente desajustado. Uma cadeia de televisão pública não é o mesmo que um parque industrial. O valor acrescentado de um serviço público de televisão está longe de ser comparável ao de uma central de produção de polpa de tomate; por isso, a forma como o tratamos não pode ser a da velha lógica do produto perdido e do desemprego gerado. Aquilo que está realmente em causa, e os jornalistas deveriam ser os primeiros a apontá-lo, é o bom funcionamento da democracia grega, que por estes dias já vai pela hora da morte. O serviço nacional de televisão e rádio acaba tendo uma capacidade rara para manter, ainda que fracamente, alguns tecidos que unem a sociedade. Além disso, há o escrutínio da actividade política, tão necessário em tempos de calamidade, e que facilmente se esquece no sector privado, quando as vacas, sagradas ou não, são menos gordas. Não será por acaso que não há nenhum país na União Europeia sem serviço público de televisão.

3. Voltando às bordas do mar Egeu, é também relevante a forma como todo o processo foi conduzido. E aqui entramos num problema mais sério, mais fundo, que é o do voluntarismo com que uma classe política se submete à sua própria humilhação. (Sim, quando falamos de um acontecimento destes, falamos de uma humilhação.) Note-se que o governo grego não explicou ao povo que era obrigado a encerrar o serviço pela falta de dinheiro, isto é, que não queria, mas que tinha de o fazer. Muito pelo contrário. O ministro das finanças grego falou abertamente em controlo de desperdícios e corrupção, e no fim de «vacas sagradas». Significa isto que a classe política grega abraçou a causa, ou assumiu publicamente que a abraçava. Mais do que cumprir aquilo a que é obrigado, o governo grego defende as virtudes destes disparates monstruosos. Trata-se de uma espécie de manifestação da Síndrome de Estocolmo, a qual leva às últimas instâncias a ideia de uma humilhação que deixa de ser imposta.

4. Felizmente, nem todos enlouquecemos. Claro que os gregos já estiveram mais sãos, mas depois do espectáculo de sinal fechado, já há quem pondere o regresso parcial ou total do serviço. A coligação parece ter ficado especialmente afectada. Os trabalhadores da ERT continuaram nas instalações e, por sua própria iniciativa, mantiveram o serviço aberto via Internet. A União Europeia de Radiofusão garantiu a transmissão via satélite do canal noticioso. Por todo o lado, têm surgido apelos para a reabertura do serviço. Pode ser, por tudo isto, que o serviço regresse rapidamente. De qualquer modo, fica o precedente perigoso de como facilmente se abdica de uma parte tão relevante da vida de um país e de como surge até um especial voluntarismo para o fazer. Tentado escapar-me a um reductio ad hitlerum, é bom lembrar que algo assim só aconteceu uma vez à Grécia no passado: em 1941, quando os Nazis encerraram o serviço público de rádio no seguimento da ocupação.

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publicado às 15:41


Cristas

por Tiago Moreira Ramalho, em 13.06.13

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publicado às 20:20


Wittgenstein e Platão

por Tiago Moreira Ramalho, em 12.06.13

Uma imagem que não tem nada que ver com o assunto em questão, mas que é engraçadíssima.

 

Um tipo consegue impressionar-se. Principalmente, e aqui peço genuinamente que me poupem os dardos invejosos, quando está ainda mal entrado nos 20s. Há dois ou três filósofos, todos necessariamente mortos, que me despertam especial curiosidade para a construção de um «sistema». Um sistema geral de compreensão de tudo isto. Claro que haverá outros que simpaticamente contribuíram para entendimentos parciais, ou cujo texto permite olear algumas maçanetas. Mas aqueles em quem procuro uma espécie de verdade completa são poucos. Temos irremediavelmente Platão, temos curiosamente Wittgenstein e duvidosamente (daí o «dois ou três») Hume, que era, como todos sabemos, excessivamente gordo e cordato. (Nietzche mete-me cagufa, mas não digam à minha mãe, que ela alimenta a firme convicção de que sou bastante corajoso no que toca às leituras.) Pouco avisadamente botei-me a ler nos últimos dias umas coisinhas mais ou menos dispersas sobre Estética, uma brincadeira que nunca me agradou especialmente. Entre a possibilidade de uma estética cujo valor nasce e vive exclusivamente da qualidade ética, rejeitando-se por isso formas menores que nos tolham a razão e nos aproximem de alguma bestialidade, e a hipótese de uma estética que parece ser uma espécie de pequeno compartimento da «correcção» (o belo enquanto correcto), ganho pequenos afrontamentos. Porque se é certo que um belo que é bom, ou uma estética que é ética, por um lado, e uma estética que se aproxima disto, mas que ganha contornos de maior convencionalidade (admitindo que a própria ética não é mera convenção), por outro, me permitem um sistema compostinho, é também certo que fica aqui a arte num impasse. A arte como fim em si, ou no limite a arte com objectivos primordialmente sensacionistas e desrespeitadora da norma ou do método fica condenada à irrelevância estética. O problema do clássico como permanente ou volátil também fica enfiado no meio das duas paredes, mas disso já desisti.

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publicado às 11:25


Adágios da reacção

por Tiago Moreira Ramalho, em 09.06.13

Na primeira quinzena de Junho choveu em Portugal. Como facilmente se conclui, o aquecimento global é um grande disparate. 

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publicado às 19:45


Do Patético «Acordo»

por Tiago Moreira Ramalho, em 08.06.13

Este que dedicadamente vos escreve, como poderão facilmente constatar, não é especialmente amigo do Acordo Ortográfico. Tirando algumas, mínimas, excepções, considero-o um delírio de intelectuais. Por isso agrada-me tudo o que por aí haja contra a brincadeira: as bonitas notas de rodapé dizendo que os autores que vou lendo não adoptam a nova ortografia; as entrevistas de gente que ilustremente se insurge contra a coisa; e os livros. Um destes dias, a Guerra e Paz publicou um do Pedro Correia, meu antigo colega de blogues, com o título «Vogais e Consoantes Politicamente Incorrectas do Acordo Ortográfico». Lido o texto, há que dizer que o Pedro fez um notável trabalho no âmbito da investigação. Escapou-lhe o pé para o jornalismo e trouxe um conjunto vastíssimo de argumentos das mais diversas proveniências. A meu ver, pecou por certo exagero: há muito pouco do livro que seja de facto escrito pelo Pedro. E os breves comentários e opiniões que nos oferece, quando não são sobre as citações, derrapam mais do que o expectável para alguma piada fácil e pouco feliz («Adoção, despida do p, ganha um insólito parentesco com adoçante. Mesmo que seja amarga...», p. 95), ou para um conjunto de neologismos sloganísticos como «acordês», «acordortografiquês», «desacordo ortográfico», ou «(des)acordo ortográfico». Faltou-lhe especialmente dar conta mais extensiva dos argumentos a favor do Acordo, até para que os pudesse rebater.

De qualquer maneira, o livro cumpre a obrigação. É um livro de divulgação e não se pretende (espero eu) uma tese académica ou coisa semelhante. Quem o lê, e lê-se muito bem, ganha uma visão ampla sobre o que tem sido a grande aventura de um processo político tonto, que pelo meio já fez estragos e que, mais cedo ou mais tarde, mais não seja por generalizada recusa, cairá. 

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publicado às 13:56


Não está em causa o direito à greve

por Rui Passos Rocha, em 07.06.13

A relação da direita com as greves é mais ou menos isto:
- És um insensível, um estúpido.
- Preferes que não te diga o que sinto?
- Não, não é isso. Mas tinha de ser esta semana? Há precisamente um mês sorriste-me em frente a uma florista.
- Então quando posso dizer-te que algo está mal?
- Sempre, querido. Desde que não seja numa data que me faça lembrar algo bom no passado.
- Ah...

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publicado às 10:32


Ficção na era da técnica

por Rui Passos Rocha, em 07.06.13
A biografia memorável não é a da escrita asséptica dos especialistas. Os códigos científicos toldam a inspiração, a ânsia de neutralidade empobrece o discurso, um tema cativante fica preso numa teia de referências externas e palavreado difícil de mastigar, ambos ali encaixados para que todos vejamos quão bem o autor se masturba. A boa biografia deve somar hipóteses de interpretação a uma moral para a história, não estéreis 'subsídios para a compreensão' de blábláblá. Quero que arrisque conclusões, não que fuja a elas alegando falsa humildade. A vida e a obra não são só sequências de acontecimentos, são também as motivações que lhes subjazem, mas que só um grande autor destrinça.

Por isso normalmente prefiro a biografia da boa ficção: é tão real como se o fosse e normalmente ganha em profundidade. Como quando li, nestes dias, 'A Mancha Humana' de Philip Roth e sonhei vir a conhecer alguém vivo tão bem quanto a admirável Faunia Farley, a iletrada empregada com um terrível passado e uma desencantada e darwiniana opinião sobre toda a gente. Ou quanto Coleman Silk, o obstinado e autoritário ex-reitor que foi capaz de abandonar a família mas jurou vingança quando o cinismo dos seus inimigos na universidade o queimou na praça pública com uma injusta acusação de racismo. Ou ainda quanto Delphine Roux, a cínica-mor, com uma carreira académica brilhante e um lado afectivo subnutrido (y que los hay, los hay).

Acima de tudo, gosto de uma biografia que vergue as minhas conclusões precipitadas, uma após a outra, até à conclusão final, que - como no caso de Silk - pode até divergir um pouco da do narrador. Compreender as pessoas, ou as boas personagens, é aceitá-las gostando ou não delas. Com as personagens de 'A Mancha Humana' posso, sem o temor do costume, dizer ter aprendido sobre as pessoas mais do que aprenderia com qualquer calhamaço de História ou estudo de genética.

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publicado às 02:01


Pornografia séria

por Bruno Vieira Amaral, em 06.06.13

Notícias preocupantes para o mundo da pornografia: em 2014, a Routledge publicará a primeira revista académica dedicada aos estudos pornográficos. As editoras da publicação, Feona Attwood (Universidade de Middlesex – sem malícia) e Clarissa Smith (da mais resolvida Universidade de Sunderland), avisam que a mesma será dedicada ao estudo dos “produtos e serviços culturais denominados pornográficos”. Ora, a consagração académica da pornografia é um facto que certamente ocasionaria os mais veementes protestos dos consumidores se estes não estivessem tão ocupados a consumir pornografia. Até hoje, a pornografia tinha conseguido resistir estoicamente às investidas da Cultura, mantendo uma aura de clandestinidade, vício, depravação e vergonha moral que honrava gerações e gerações de onanistas furiosos e contumazes. A partir de 2014, esse mundo idílico será parte de um passado irrecuperável, mero artefacto museológico ou souvenir de tempos felizes. Quando, daqui a vinte anos, um adolescente pesquisar na net “sexo, pornografia, grátis” já não será encaminhado para um paraíso gráfico de beldades virtuais, barely legal, mas para um extenso, impenetrável e castrador artigo de um qualquer discípulo de Boaventura Sousa Santos com o título “A Territorialidade da Fantasia no Devir do Prazer: Subsídios para uma história dos brinquedos sexuais”. Lamentemos a sorte dos que estão por nascer. Entretanto, os interessados podem enviar os seus artigos e dúvidas sobre a utilização de bolas chinesas para o muito sério editorspstudies@gmail.com.

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publicado às 13:21

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