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Matemáticas gerais

por Frederico V Gama, em 19.04.13

Pessoalmente, acho que os programas escolares não deviam ser mexidos durante vinte anos, a não ser que descubram um novo planeta entre a Terra e Marte, mas a alteração do currículo de Matemática no 1º ciclo deixa-me perplexo. Escreve o Público que “a notícia” (Anúncio de novo programa de Matemática no 1º ciclo) “foi recebida com enorme surpresa por estas professoras [Associação Nacional de Professores de Matemática] e também, presume-se, pelo resto da comunidade educativa”. Eu cito outra vez: "e também, presume-se, pelo resto da comunidade educativa." O Público, esse jornal maravilhoso e de causas, presume que houve escândalo — não conferiu, mas presume, o que é suficiente. ("–Idalina, estou aqui a fazer a primeira página, sabes quantas pessoas morreram em Boston?" "–Aí umas três, presumo." "Tens a certeza ou presumes?" "Presumo, Alcipe." "É quanto basta. Três, é isso? E quanto ao programa de matemática, como estão a ser as reacções?" "Presumo que ande toda a gente fodida nas capitais de distrito." "É assim mesmo.") Para melhorar a coisa, a jornalista transcreve a afirmação (de uma das senhoras da ANPM) de que se trata de "um ministro que não é sequer matemático e sim economista". O Público, esse jornal maravilhoso e deontológico, sabia que Nuno Crato fez o mestrado em Métodos Matemáticos e um doutoramento (nos EUA) em Matemática Aplicada, é professor catedrático de Matemática e Estatística e foi presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática. Sabia, mas não esteve para se maçar. ("Ó Idalina! Mas o Crato não é matemático?" "É, Alcipe. Mas as professoras dizem que não.") Que as senhoras professoras temam um programa em que os meninos tenham de saber a tabuada, isso já pia mais fino, porque é uma violência inusitada cometida sobre aqueles pobres seres que sabem manejar seis modelos diferentes de telemóvel mas não conseguem fazer uma soma de três parcelas. É o que eles fazem no 1.º ciclo. Eu sou contra as mudanças nos programas escolares durante cerca de trinta anos (acabo de prolongar um pouco a moratória), mas se for para impedir que se ensinem "matemáticas alternativas" com calculadora acoplada e, nessas idades, se insista nas "aprendizagens baseadas na mecanização de procedimentos e rotinas" em matemática, estou disposto a ponderar. 

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publicado às 15:37


Um rogoboff

por Tiago Moreira Ramalho, em 19.04.13

Três estudantes norte-americanos (gente esforçada e certamente de grandes expectativas) lembraram-se de pegar com algum cuidado num artigo famoso de Rogoff e Reinhart, a dupla maravilha do «This Time Is Different». Resultado: encontraram um erro. A estória conta que o autor da descoberta, Thomas Herndon, estava com a respectiva cachopa lá em casa e até a chamou, não fosse aquilo ser obra de génios maldosos. Ela disse que sim, que sim, que havia para ali patranha. E havia. O moço, juntamente com os amigos, publicou a cabal denúncia da mentira. A grande academia entrou em reboliço. Os inevitáveis corrimentos chegaram rápido à opinião pública e os bodes expiatórios da nossa miséria ganharam, finalmente, carne e osso. Pelo meio, esquecemos que a ciência, seja ela qual for, está sujeita, também, à possibilidade do erro grosseiro; esquecemos que na semana em que Rogoff e Reinhart publicaram o seu paper, milhares de intervenções públicas defendiam o preciso oposto; e esquecemos que se é certo que o paper defendia certa política, não foram os seus autores a implementá-la. Mais que tudo, fingimos que o paper precedeu a decisão e não foi, como sempre é, mero instrumento, mais ou menos sofisticado, usado como justificação possível de uma vontade estabelecida. A mudança de paradigma não se deveu a uma revolução científica. A ter havido revolução, foi política. O resto é linguagem e fumo.

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publicado às 15:13


Sobre isto não falou o Obama

por Rui Passos Rocha, em 19.04.13
Toda a gente fala de Boston, mas há dias Lisboa foi palco de uma tragédia bem mais grave. Estou aqui para soar o alarme. O espaço Carpe Diem, sempre atento às várias formas de gozar a vida, realizou um "workshop de suicídio". Não "sobre", "de". Em sessões individuais ou duplas, de 20 minutos, foi explicado aos interessados que o suicídio "é uma morte natural" e uma "forma de libertação", que "distingue" o Homem dos outros animais. Ainda assim, os participantes foram "ajudados" a "cuidar-se", seguindo-se a tese do Werther Effect - de que um suicídio aparatoso pode causar uma onde de suicídios. Afinal, a organização não estava interessada em comprovar a teoria a meio do workshop, até porque seria trabalhoso lavar a sujeira. Foi precisamente para evitar isso que tentou o nó cerebral, relativizando o suicídio e ao mesmo tempo fazendo por preveni-lo. Daí este ter sido um workshop "de" suicídio: um workshop para confundir e fazer remoer. Talvez por isso o pagamento dos 5€ do workshop tivesse de acontecer, obrigatoriamente, "no próprio dia". Não fosse o suicídio tecê-las.

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publicado às 11:30


São todos fachos

por Frederico V Gama, em 19.04.13

Segundo um cavalheiro que foi enviado à Venezuela pela revista Visão, e que não deixará de regressar, o derrotado Capriles Radonski, candidato da oposição, «reúne a direita radical, a classe média devota de Miami e a burguesia moderada». São quarenta e nove por cento do eleitorado venezuelano, che! Trinta e dois e meio por cento usa ou alguma vez tencionou usar bigode.

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publicado às 11:14


Parto sem dor

por Bruno Vieira Amaral, em 19.04.13

Criar um blog em 2013 é um exercício tão anacrónico que pode facilmente passar por uma extravagância aristocrática, como viajar de comboio a vapor ou passear pela Baixa de Lisboa a cavalo. Passaram dez anos desde a erupção violenta da blogosfera. Dessa época ainda restam alguns simpáticos exemplares que, por muito que se esforcem para parecer vintage, já não conseguem disfarçar a incompatibilidade entre o meio e a antiguidade. São como um quarentão barrigudo com uma t-shirt dos Rage Against the Machine. A blogosfera que não caiu institucionalizou-se. Os seus autores escrevem em jornais (alguns já escreviam só que ganhavam menos), comentam na televisão e, glória máxima, são deputados da oposição ou membros do Governo. Olham para a blogosfera com aquela condescendência nostálgica de um adulto a recordar as tardes em que faltava à escola para ir roubar disquetes e chocolates ao Pingo Doce. É neste cenário de irrelevância da blogosfera que decidimos criar um blog. Só porque, apesar de todas as mudanças, acreditamos que aqui somos mais livres. Não temos patrões, nem linha editorial, nem essa doença infantil do jornalismo que é “a responsabilidade perante os nossos leitores”. Os leitores que se fodam. Se querem protestar mandem cartas ao Marcelino, à Reis, ao Costa, ao outro Costa, ao Saraiva, ao Santos Guerreiro, ao Ribeiro a ameaçar pomposamente que a partir de agora é que nunca mais compram aquele jornal e a fadistar saudades dos tempos em que o director era outro e os jornalistas tinham coluna vertebral e bigode (por acaso, o nosso Frederico Ventura da Gama é senhor de um magnífico bigode). A vantagem da blogosfera é esta: não negociamos com terroristas. De resto, hoje está um lindo dia de sol e gostamos muito de toda gente.

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publicado às 10:56

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