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Eton e sabonete

por Tiago Moreira Ramalho, em 02.05.13

Andando pelos estrangeiros nas redondezas do dia do trabalhador, acabei vendo um pequeno debate na BBC sobre Eton. Os convidados eram um professor, um jornalista, uma deputada e uma moça que parece que é presidente de uma coisa qualquer dos estudantes. Discutiam o facto sobejamente conhecido de virem de Eton governos inteiros no Reino Unido. O problema não era necessariamente que Eton formasse governantes, até porque não há muitas dúvidas sobre a qualidade da escola. Questionavam os debatentes a endogamia gerada por uma classe política cujos amigos são largamente provenientes do mesmo liceu. Dizia o professor, cujo interesse do que dizia o colocava a uma distância considerável dos restantes, que a situação era, de facto, preocupante, mas que era necessário que as outras escolas, permita-se-me a tradução livre, botassem os olhinhos no que Eton faz. E isto é tão inglês quanto português: as escolas públicas, de um modo geral, são pequenas indústrias para feitura de exames padronizados. Toda a educação que rodeia o conhecimento é negligenciada, o que leva a que as escolas que aliam a um excelente ensino uma sólida formação de carácter (coisa em que Eton, tal como outras escolas privadas, aplica algum esforço) vejam os seus antigos alunos chegar onde mais ninguém chega. Por cá viu-se bem a experiência da disciplina de «Formação Cívica», uma tontice de má memória. Numa escola pública comum poucos são os professores que atentam aos comportamentos informais dos alunos: não é raro haver chapéus na sala, pés nas cadeiras, headphones nos ouvidos ou telemóveis nas mãos (já todos estivémos lá, não é verdade?). Falamos aqui de convenções sociais elementares, porque o certo é que se pode ir mais a fundo. Veja-se a velha história, tão repetida, do encontro de Churchill com outro rapazola numa casa de banho. O gorducho saiu sem lavar as mãos e o rapagão, cheio de tarimba, chutou-lhe que em Eton ensinava-se a garotada a lavar as mãozinhas depois do chichi. Churchill, que não foi a Eton, respondeu que em Harrow o que ensinavam era a não mijar nas mãos. Uma conversa maravilhosa, mas certamente reservada a quem frequentou escolas com sabonete na casa de banho.

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publicado às 21:51






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