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Coisas importantes

por Bruno Vieira Amaral, em 25.04.13

O futebol não é só futebol. Há um ano, o presidente do Bayern de Munique, o ex-jogador Uli Hoeness, confrontado com as dívidas fiscais dos clubes espanhóis, atacou com veemência, gritando no seu melhor português: “Isto é impensável. Nós damos-lhes milhões de euros para os tirar da merda e depois os clubes não pagam as dívidas.” Hoeness referia-se aos milhões que os alemães pagam aos preguiçosos do Sul e que estes malandros depois usam para pagar salários ao Messi e ao Ronaldo, o que se compreende, mas também ao Alexis Sanchéz e ao Nelson Oliveira, o que já devia causar verdadeira indignação. Esta semana foi a altura de pôr tudo em pratos limpos. Os dois maiores clubes alemães enfrentavam os seus homólogos espanhóis. Os primeiros são a expressão de um campeonato saudável e burguês, com estádios cheios, clubes com dinheiro e salários em dia. Os outros dois são os fidalgos gordos de uma Liga cada vez mais depauperada e desigual, de estádios vazios e clubes cheios de dívidas. O resultado não podia ter corrido melhor a Frau Merkel. Duas goleadas em território germânico em que os colossos ibéricos foram atropelados pela vitalidade germânica guiada por esses poster-boys da vontade indómita dos arianos que são Schweinsteiger e Götze (o Freitas Lobo esteve bem ao dizer que o Bayern parece que joga com botas da tropa, o que mesmo que não faça justiça à capacidade técnica dos jogadores é bom para início de conversa; eu diria que é ballet com botas cardadas, mas isso sou eu, que escrevo melhor que o Freitas Lobo). Só que, nesta semana de todas as humilhações para Castela e Catalunha, soube-se que o sr. Hoeness, o tal que deplorava os milhões pagos pelos alemães para tirar os espanhóis da merda, está sob investigação por fuga ao fisco, um facto que até pode vir a prejudicar Angela Merkel nas eleições de Setembro. O futebol não é só futebol. Os espanhóis entraram em depressão com as goleadas mas gostaram de ver o moralismo verbal de Hoeness ser derrotado pelas suas acções. Os alemães ficaram eufóricos com os resultados e um pouco envergonhados com esta história do proprietário de uma fábrica de salsichas. Claro que a euforia alemã é muito peculiar e tem a capacidade de devolver o futebol ao lugar onde é apenas futebol. Jupp Heynckes, treinador do Bayern de Munique, disse a uma revista inglesa que a família deu pouca importância à goleada ao Barcelona: “Esperava que falassem do jogo, mas ouvi reclamações sobre a professora da escola do filho de um amigo, sobre a drenagem do rio Elba e a análise de um vinho.” Contra a dramatização operática dos espanhóis, contra a hipocrisia do senhor Hoeness, até contra a beleza blindada do futebol alemão, a análise de um vinho e a drenagem do rio Elba parecem-me as coisas mais belas e mais autênticas do mundo.

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publicado às 12:18






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