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Bichas histéricas

por Tiago Moreira Ramalho, em 22.04.13

Os franceses estão, de um modo geral, arreliados. Há o presidente tosquinho, há o desemprego, há a comum chatice dos dias e, em cima de tudo isso, floreia colorida a questão gay. Esta semana vai ser votada a proposta que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo e as ruas de Paris andam movimentadíssimas. Têm vindo passear, logo aos milhões (palavra: as organizações dos respectivos movimentos falam em mais de um milhão de participantes em cada manifestação), uns a favor, outros contra, numa rebaldaria. Ontem, dia do descanso familiar, vieram de novo, em números mais modestos (parece que faltaram as carreiras a ir buscar gente ao Plomb du Cantal e arredores). A França, dizem todos, está com uma crise de valores. Fala-se mesmo em infanticídio em massa («Vous êtes en train de assassiner des enfants», alertou, visivelmente transtornado, o senhor Philippe Cochet, da UMP). Tudo, no fundo, muito triste, mas expectável. Ainda que não sejam considerados pináculos de masculinidade (pelo menos os homens), os franceses sempre foram caninos na defesa da saúde das suas fêmeas. Mesmo os movimentos de esquerda mantiveram considerável «desconfiança» (chamemos-lhe assim) face às frentes revolucionárias dos pédés. A Manière de Voir, numa edição de 2011 sobre revoluções (de toda a espécie), relata mesmo um episódio curioso. O Partido Comunista Francês, na sua posição oficial, dizia, em 1972, que «la couverture de l’homossexualité ou de la drogue n’a jamais rien eu à voir avec le mouvement ouvrier». Misturar homossexualidade e drogas era, acredite-se, o lado brando do PCF. Um antigo candidato presidencial do partido, Jacques Duclos, chegou mesmo, quando questionado por um activista sobre a existência de revisões à posição oficial, a responder algo como: «Comment vous, pédérastes, avez-vous le culot de venir nous poser des questions? Allez-vous faire soigner. Les femmes françaises sont saines; le PCF est sain; les hommes sont faits pour aimer les femmes.» Ignoro se o activista, depois de tão incisiva lição sobre os factos da vida, deixou de dormir com homens. Era essa a vontade do sr. Duclos. Tal como será, muito provavelmente, a vontade do sr. Cochet – o equivalente, nas alas mais à direita do parlamento francês, a uma bicha histérica. Deles e de muitos outros: em Lille e em Bordéus já houve ataques armados a bares gays (sim, porque isto não tem – nunca tem – nada que ver como homofobia; a gente só tem mesmo muito rigor semântico no respeitante ao casamento). No fim, resta esperar que o parlamento francês tenha «le culot» de, amanhã, fazer o que está certo.

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publicado às 11:50


2 comentários

De Textículos a 22.04.2013 às 13:30

A proposta ja foi aprovada na Assembleia Nacional, tanto do casamento como da adopcao, falta agora a aprovacao no Senado que o Presidente "mandou" acelerar e ainda mais enfureceu a rapaziada.
http://txticulos.wordpress.com/2013/03/25/tear-gas/

Ainda nao me entendi com o teclado gaules, dai a falta de acentos. Deixo-vos a ultima coqueluche do cinema frances, estreia dia 24.
http://www.pathefilms.com/film/lacagedoree

De josé a 10.05.2013 às 16:35

oh tiago, por favor, diz-me a verdade. diz-me a verdade que sou teu. e juro que o que menos me interessa em ti é tua situação profissional (tenho que te confessar que leio o correio da manhã). portanto já sabes - a verdade.

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