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A lareira do exame

por Tiago Moreira Ramalho, em 01.08.13

«“ (...) E assim, Lídia, à lareira, como estando/deuses lares, ali na eternidade/Como quem compõe roupas/O outrora componhamos/Nesse desassossego que o descanso/Nos traz às vidas quando só pensamos/Naquilo que já fomos/E há só noite lá fora”. O poema de Ricardo Reis, impresso no enunciado do exame nacional de Português do 12.ºano, fez a vida negra aos estudantes; foi-lhes pedido para explicitarem os valores simbólicos do espaço e do tempo em que ocorrem as recordações do passado, mas alguns dos alunos, em vez de se referirem à lareira como símbolo de tranquilidade e de segurança e à noite como tempo de eleição em Ricardo Reis para representar a velhice e a aproximação da morte, preferiram explorar uma interpretação mais livre.

Alguns responderam que Ricardo Reis “pôs-se à lareira porque tinha vindo do trabalho e estava cansado”. Outros optaram por argumentar que o heterónimo de Fernando Pessoa “esteve a compor a roupa” e foi para a lareira para “descansar das lides domésticas”. Houve quem dissesse que “tinha acabado de passar a ferro”. E ainda: “O tempo em que ocorreram as recordações estava mau e por isso ele foi para a lareira”.» Jornal Sol.

 

Percebo as dificuldades substanciais de se preparar um exame nacional de língua portuguesa, com a necessária análise de poesia e prosa, sem que haja critérios mais ou menos uniformizadores. Ao mesmo tempo, contudo, aflige-me a ideia de uma interpretação certa (ou errada) de um objecto artístico. O declínio das humanidades nasce da tentativa de explicar aos aspirantes que o que eles estão ali a fazer é aprender factos. Daí a termos um jornalista (que certamente virá das «humanidades») a dar como certa a «lareira como símbolo de tranquilidade e de segurança» e assim, é um saltinho lamentável. Mesmo que os catraios sejam todos umas bestas.

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publicado às 10:50






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