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Ninguém

por Rui Passos Rocha, em 24.07.13

Acabei de ler um pouco interessante livro de Eduardo Galeano sobre futebol e passei para O General no seu Labirinto de Gabriel García Márquez, que retrata os últimos tempos de Simón Bolívar. Tal como o conquistador, o craque Maradona dependia da aclamação para justificar a abdicação que foi desde cedo a sua existência: "Necessito que me necessitem", disse, já curvado pelo peso da fama e da cortisona. Bolívar passou largos meses a jurar que deixaria a governação, mas desistiu sempre com os apelos dos apoiantes. Até que foi levado à decisão irrevogável - e aqui uso a palavra não no sentido do novo Acordo Semântico aprovado por Paulo Portas - e, com apenas o mordomo indefectível e Hugo Chávez bem longe dos planos divinos, se entregou aos desprazeres da melancolia e da ansiedade, só quebrados, a espaços, pelas visitas da namorada e uns quantos passeios junto ao rio. Menos sedentos de aclamação foram outros dois futebolistas, Eusébio e Garrincha, também eles geniais e, como Maradona, nascidos na pobreza. Garrincha era o miúdo de corpo disforme que todos desencorajavam mas que triunfou e acabou agarrado às lembranças e ao álcool. Eusébio, o 'pantera negra', foi em criança, enquanto não encantava nem fazia lucrar, carinhosamente apelidado de 'ninguém' lá em Moçambique. Portugal abraçou-o assim que percebeu que ele prestava para alguma coisa. Que prestava muito. Talvez ele não tenha esquecido, porque não perdeu o semblante triste, ter antes sido 'ninguém' e, não fosse o abraço da hipocrisia, ter podido sê-lo sempre. Prefiro imaginá-lo assim, inteligente.

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publicado às 16:45






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