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Dans la Maison

por Tiago Moreira Ramalho, em 22.07.13

 

Vi o trailer depois de terminar Camille Claudel, 1915. Saí da sala do Monumental e parei (poderia dizer que estaquei, mas preferi não o fazer) no meio do corredor espreitando para dentro da sala do lado oposto (a senhora cujo mister é rasgar os bilhetes de quem entra pareceu-me um pouco confusa com o comportamento, ou talvez com a posição, dado que eu estava desnecessariamente debruçado). Um miúdo; um professor de literatura que o apadrinha; ares de thriller; tudo em francês. Coisa suficiente para me levar a ver o filme.

No início do ano lectivo, no Liceu Gustave Flaubert, Claude surpreende o professor com um ensaio (à suivre) sobre o que fez durante o fim-de-semana. Na composição, os seus 16 anos deixam cair sobre a família do colega Rapha uma análise tão clínica quanto cínica que culmina na soberba descrição da ociosa mãe como tendo o «característico cheiro das mulheres da classe média». O professor, intrigado pela possibilidade de um «dom», passa a dar aulas particulares ao rapaz, apresentando-lhe a grande literatura e revendo-lhe os textos que continuam a versar sobre a mesma «temática». Facilmente se opera um saltinho destas inocências para um emaranhado de voyeurismo que leva a família dos Rapha todas as noites para a cama de Germain, o professor de Francês, onde tudo é discutido com a esposa nos intervalos dos seus lamentos sobre a galeria de arte que não vinga e as patroas que não percebem nada do assunto. Conhecemos Rapha filho, colega de Claude, e personagem inapelavelmente desinteressante, apesar dos apelos do professor Germain para que se lhe dê mais relevância, recebida apenas quando, saindo do folhetim, aplica uma exemplar sova a Claude; conhecemos Rapha pai, um bronco feito de lugares-comuns, que chora recorrentemente por causa do chinês que lhe inferniza a vida, e provavelmente também com o cheiro característico dos homens da classe média, ainda que nada nos seja dito nesse sentido; e conhecemos Esther (Esther… Esther…), uma dona-de-casa cujo drama existencial é a inadequação da cor dos cortinados e que acaba sendo cobiçada pela visita adolescente. Claude mantém frouxas as fronteiras entre a sua imaginação e o real; nunca sabemos o que realmente se passa. Nem nós, nem Germain, que se abeira do desespero. No fim, indo contra os desejos do seu mestre, que lhe pede que continue, que a história tenha um fim, Claude pára de escrever. Procura, no entanto, no decorrer de um possível mal-entendido, um «fim para o seu professor». O professor, apropriadamente, e depois de alguns solavancos narrativos, cai em desgraça, com direito a barba por fazer, banco de jardim, e tudo.

Ozon realizou uma espécie de ensaio sobre a frustração, decentemente regado por algum humor e uma história de suspense (Que va-t-il se passer?). Há o homem frustrado com o seu trabalho; há a mulher frustrada com a sua falta de trabalho; há a outra mulher frustrada com as patroas ignaras; e há, acima de todas estas, a frustração de um professor de Francês cuja carreira literária nunca se concretizou. Só por causa desta última, ainda que todas as outras sejam bons combustíveis, é que pode surgir Claude Garcia, que poderemos descrever como um competente representante do Mal aspergido de aromas de Rimbaud. No fundo, tudo decorre de ter um dia o professor percebido que tomado todo não valia uma página das que admirava. Coisa que pode plausivelmente calhar a qualquer um de nós.

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publicado às 15:36






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