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O crítico sou eu

por Tiago Moreira Ramalho, em 15.07.13

Dan Brown com a mão na anca.

 

O renomado autor Dan Brown voltou a publicar um livro. O título é «Inferno» e já tem tradução em português, simpatia da Bertrand. Como é natural, por ser a repetição de uma ideia já compreendida por toda a gente, ainda que com umas diferenças de entoação e de gramática, uma forma assaz eficaz de sobreviver nos meandros da «crítica», amontoam-se os artigos a explicar, com mais ou menos cuidado, que Dan Brown é, infelizmente para o mundo, um péssimo escritor. A proliferação desta espécie de missa machuca a mente das gentes que não querem saber do Dan Brown para coisa nenhuma, mas que apreciariam a possibilidade de ler ocasionalmente uma boa crítica literária.

O mecanismo segundo o qual se criticam os livros de Dan Brown é comum àquele segundo o qual se criticam a maioria dos autores do género «mau». Pretende o excelente leitor que eu clarifique? Vamos lá a isso. Começamos por fazer alguns considerandos sobre a fama e a quantidade de livros que Dan Brown vende, confessando o nosso espanto por não ter o resto do mundo o bom gosto que nós mesmos temos no respeitante à boa arte literária. Maldizemos a condição humana e o mercado, que é consequência dela, por não vedarem a esta gente o acesso aos escaparates. No fim do lamento muito pertinente, porque é sempre necessário que discutamos a cultura nas plataformas de debate e exposição pública de ideias, começamos a nossa análise do livro. Nessa análise explicamos que Dan Brown tem uma má relação com a gramática, além de ter uma leve propensão para a repetição excessiva da mesma palavra ao longo das páginas. Seguimos para um ataque cerrado às figuras de estilo que, apesar de não dominar, o autor se esforça por martelar dentro do texto. Sinalizamos ainda, porque é o nosso dever fazê-lo, a inverosimilhança de pontuais peripécias e diálogos, pois é sempre necessário lembrar que não é concebível que um tipo comece a falar sobre irmandades secretas enquanto se esforça para descer por uma corda de um prédio em chamas. Se tivermos algum espaço livre ainda, podemos falar sobre o quão conveniente é a existência de uma história de amor tipificada, com uma mulher muito bonita no papel de ajudante do soberbo Robert Langdon, da invulgar forma física de um académico de meia-idade, ou da circularidade das personagens que têm uma fatal «falta de relevo».

Se a repetição simples de ideias feitas não fosse, já de si, coisa bastante (a menos que o crítico esteja, no fundo, a ensaiar uma mastodôntica figura de estilo, apoucando a simplicidade do livro através de uma crítica de uma simplicidade aparente, mas de elevada minúcia; convém, contudo, explicar cuidadosamente ao leitor que esta possibilidade é tão concebível quanto a ideia de Robert Langdon entabular uma boa conversa sobre irmandades secretas enquanto tenta descer por uma corda de um prédio em chamas), torna-se o espectáculo ainda mais infeliz quando a essa repetição se oferecem palcos privilegiados. A verdade é que este tipo de tralha jornalística é popular e os editores, apesar das vilezas da condição humana e do mercado, que é consequência dela, optam por lhes dedicar longas páginas. Foi o caso, por exemplo, do «Atual» desta semana, que permitiu que Clara Ferreira Alves expusesse com particular proluxidade os seus dizeres sobre o fenómeno danbrowniano. Peguemos neste caso particular para, em cima dele, teorizarmos sobre esta merda toda. (Tal como revelei um pouco mais acima, a temática em causa não me interessa, pelo que não li o artigo de CFA. Não faz mal.)

 

Clara Ferreira Alves apanhada de surpresa.

 

Quando foi a última vez que o «Atual» dedicou uma análise literária séria, de quatro páginas, a um grande escritor, esteja ele vivo ou morto? Não conto aqui com as entrevistas mais ou menos publicitárias e das «descobertas», mas falo de artigos de fundo sobre uma obra que mereça estar numa estante. As críticas literárias do Expresso, por regra, ocupam no máximo uma página, folgadamente partilhada com uma grande fotografia, para parecer mais bonito. Despacha-se, por exemplo, uma tradução de Nabokov (uma das muitas que a Relógio d’Água tem estado a publicar) numa tirinha de papel que, dada a parca largura, é insuficiente para uma apropriada limpeza do cu. Homero, Shakespeare, Tolstói, Brontë e até Pessoa são amontoados em comentários de contra-capa, tantas vezes com erros, em selecções que fazem as vezes de lista de supermercado do literato empenhado. Como não poderia deixar de ser, sobre eles despeja-se um conjunto de lugares-comuns que, por oposição às críticas a Dan Brown, lembram a profundidade das personagens, a mundividência que transborda, as verdades reveladas (para mais, remeto o bom leitor para um artigo de Rogério Casanova intitulado «Um dos Maiores et Cetera da Actualidade».) Excepcionalmente, Eça recebeu umas quantas páginas na semana passada, mas além da inevitável bonecada, foi tudo ocupado com entrevistas curtas aos bravos (entre os quais se conta precisamente Clara Ferreira Alves) investidos da nobre tarefa de prolongar a obra, com brincadeiras mais ou menos inspiradas e nenhum tratamento minimamente interessante da obra.

Entendamo-nos: todos, ou quase todos, os jornais literários fazem artigos jocosos sobre autores que se tornaram, pela fama, bobos da classe. Mal publicou o livro, Dan Brown foi gozado no Guardian, no Telegraph e em muitos outros lugares. Mas nenhum bom jornal ou suplemento literário pode dar-se ao luxo de dar mais importância a um jogral das letras que à boa literatura. Trate-se dos «Infernos» e da restante parafernália que o género publica na meia-dúzia de linhas que merecem e dêem-se as quatro páginas a um texto que valha o tempo despendido. De preferência, escolha-se, dentro do orçamento, um crítico que perceba alguma coisa do assunto.

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publicado às 15:45


4 comentários

De a 15.07.2013 às 19:00

Mas isso de "boa literatura" e assim é muito bonito, mas dá trabalho ler. E ninguém lê nem ninguém quer ler.

A "boa literatura" têm a característica incómoda de dar trabalho, e dar trabalho, para além de cansativo, é nocivo e aleija.

De Miguel Madeira a 19.07.2013 às 15:54

Também, o que significa exactamente "boa literatura"? A mim parece-me que se criou a convenção que "boa literatura" é a que fala sobre a reação emocional dos personagens a acontecimentos relativamente vulgares, enquanto que a literatura em que os personagens são envolvidos em acontecimentos extraordinários (a chamada "literatura de género") é "má literatura", mas não se percebe bem o porquê dessa classificação.

Um artigo interessante de Roderick T. Long que acaba por ser em parte sobre isso:

http://aaeblog.com/2011/05/17/makers-of-worlds/

De Tiago Moreira Ramalho a 19.07.2013 às 16:02

Miguel,

Eu diria que não é possível definir a boa literatura. É como definir a beleza humana. Essa impossibilidade, aliás, é que dá alento a essa espécie de alargamento do campo literário à crítica (isto é do Martin Amis, não é meu) e, portanto, a uma espécie de arte montada em cima de outra arte.

De qualquer forma, e mesmo não sabendo explicar porquê com especial destreza, concordaremos com alguma facilidade na ideia de ser «O Monte dos Vendavais» de alguma forma superior a «As Cinquenta Sombras de Grey».

De Tiago Moreira Ramalho a 19.07.2013 às 16:02

(Diabo. Não percebi que o comentário era uma resposta a um comentário. Meti a foice em seara alheia.)

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