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Dizer a verdade não é uma opção

por Frederico V Gama, em 04.07.13

Sabemos que era mau, muito mau, fazer uma auditoria às contas públicas antes e depois das eleições de há dois anos (foi há dois anos?). O país vinha abaixo, a comissão europeia punha-nos fora da sala, era preciso defender a honra do Estado, a dignidade dos nossos governantes, o patriotismo dos nossos contabilistas. Depois chegámos à fase do "afinal, nem imaginam como isto está". Depois, Sócrates apareceu na televisão e ficou, todas as semanas, a predicar no púlpito da televisão pública (mais conhecida como "aquilo"). Afinal estamos, ainda, na fase do "dêem-nos a nossa vida de volta". No meio disto tudo, ainda não se chegou à fase de dizer toda a verdade sobre os cofres da nação. Esta tarde ouvi na rádio pública (mais conhecida como "aquilo") um senhor que palrava exigindo que se encerrassem "os mercados" porque "os mercados" não tinham o direito de se meter na vida da política e que queríamos "a nossa vida de volta". Isto, na rádio pública (mais conhecida como "aquilo"), tem peso, foda-se. Eu também quero os subsídios de férias de volta, o Beto Acosta de volta ao Sporting, estádios em Ovar e na Pampilhosa da Serra, auto-estrada para Barrancos inaugurada com gigantones, o aeroporto de Lisboa a servir de hub para uma companhia aérea onde não deixam entrar capital estrangeiro, charros de qualidade e, até, o Museu dos Coches cheio de Lamborghinis (e já não falo de pavilhões gimnodesportivos e multi-usos em todas as freguesias com mais de duzentos e sessenta e sete habitantes). 

Mas o que eu quero, realmente, e por aqui se vê o meu alto patriotismo, é um governo apoiado por Mário Soares e Arménio Carlos, a economia dirigida por Pedro Adão e Silva e João Galamba, a educação capitaneada (vem a propósito) por Isabel Moreira, a sigurança social nas mãos de J M Pureza e até o desporto ministeriado por Manuel Sérgio (que também podia fazer os discursos do primeiro-ministro). O povo gostaria muito: teria a vida de volta, a D. Ana Aivola iria fechar os mercados para não interferirem na vida política e na campanha de criação de empregos (vá lá, o dr. Cavaco fez o mesmo na década de oitenta) e Mário Nogueira assumiria finalmente o seu lugar na presidência da confederação de pais e encarregados de educação. Santo arranjo, solução à vista. Ah! E aumentava-se a contribuição para a fundação Mário Soares, claro.

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publicado às 20:18


1 comentário

De O Autor a 05.07.2013 às 11:17

Caro Frederico,

Venho aqui pela primeira vez e gostei do estilo do blogue, coroado hoje com este seu post de humor absurdo, muito britânico. Aproveito para partilhar, sobre o tema do absurdo nacional que vivemos, um escape meu. Fingi que era "estrangeiro" e "amadei-me" com esta pequena peça de ficção, também uma experiência em inglês, onde figuram personagens ficcionadas como Viktor Gus Par, Paul Entrance, Eddy Steel, Frank Asis e Helen Splendour.

http://antologiadeideias.wordpress.com/2013/07/03/mother-will-be-so-proud/

Espero que goste(m)!

O Autor
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