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A Lisboa de Pessoa

por Rui Passos Rocha, em 20.06.13
Só pode ter sido Fernando Pessoa quem inventou o turismo do mínimo pestanejo, modalidade hoje famosamente praticada pelas hordas de japoneses que se enfilam nas principais cidades europeias. Não se lhes percebe o que é olho e o que é máquina fotográfica, pois ambos pestanejam à mesma velocidade.

'Lisboa: o que o turista deve ver' ensina um atalho seguro para as labaredas do Inferno: Pessoa garante que consegue mostrar uns 30 edifícios da capital num único dia, apenas com a ajuda de um automóvel, que podia bem ser o do Armindo Araújo (seria igualmente impossível). Porque a intenção de Pessoa é mostrar também os interiores, não apenas um estendal de fachadas mais ou menos apalaçadas, com pouco interesse para quem não lhes encontrar algo memorável.

Escrito em 1925, o livro retrata a capital de uma "nação organicamente imperial" cujos funcionários alfandegários são, como não podia deixar de ser num livro de propaganda, "invariavelmente educados" e, sabemos bem, poliglotas. Dos principais pontos turísticos sabemos que os horários típicos eram das 11h00 às 17h00 e que eram muitos deles geridos por gente "competentíssima". Este guia de Pessoa, primeiro e único da série All About Portugal cuja ideia Pessoa tentou fazer interessar ao governo, é assim monocórdico.

Mas aprende-se bastante com ele, porque há aqui trabalho de pesquisa. Eu aprendi, entre outras coisas, que Lisboa em 1925 tinha bibliotecas ao ar livre nos jardins de São Pedro de Alcântara, Príncipe Real e Estrela; que ainda nessa altura atracavam barcos na Praça do Comércio; que o Teatro Nacional era chamado de Almeida Garrett; que foi uma mulher, a Presidente da CML Rosa Araújo, quem teve a ideia dos lagos da Avenida da República; que a Praça Camões era toda ela repleta de árvores; que há no Museu Zoológico, naquele tempo Museu Bocage (não lhe assentaria melhor um Museu Anatómico?), um peixe com mais de 8 metros de comprimento saído do anzol de D. Carlos (coisa que não roça a excelência de Vladimir Putin, que não só catou uma ânfora do fundo do mar como é mestre de judo, piano e jogo do sério); que há na Academia das Ciências uma Bíblia de Gutenberg, uma edição original d'Os Lusíadas e bustos de grandes cabeças pensantes da História; que há uma Sala de Dom Quixote, repleta de telas baseadas no livro, no Palácio de Queluz, que Junot habitou; e que a Basílica da Estrela alberga a múmia de uma criança que o Papa Pio VI muito papalmente mandou retirar das Catacumbas de Roma para vir repousar outra parte da eternidade, agora sim em paz, em Lisboa.

O livro, que li na edição recente da Livros Horizonte, mastiga-se com gosto em poucas horas e é bilingue (pt-ing), coisa que teria agradado aos funcionários das alfândegas. Os textos são acompanhados nas margens de belas fotografias, ainda que demasiado pequenas, de Joshua Benoliel e outros. É sem dúvida melhor edição do que a que li há tempos de uma BLX. E fica bem na estante de um qualquer lisboeta, natural da cidade ou emprestado, como eu.

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publicado às 00:08






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