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«Não humilharás»

por Tiago Moreira Ramalho, em 18.06.13

«A crise europeia arrasta-se, propaga-se e adensa-se, deixando nos cidadãos a sensação de impotência dos Estados nacionais e das instituições europeias. Esse sentimento é estrutural e parece radicado. Mas a verdade é que o enraizamento progressivo do conformismo, do desencanto e da desesperança tem sido intermitentemente marcado por episódios agudos deveras preocupantes. São sinais, meros sinais - sinais do caminho ou dos caminhos de evolução e desenvolvimento da crise. São motivos de alarme.

Lembro a ideia perigosa - perigosíssima, a mais perigosa de todas - de nomear um "comissário especial" para a Grécia. Recordo a polémica, azeda e agreste, a propósito do pepino espanhol e dos seus efeitos letais sobre os habitantes da região de Bremen. Recapitulo o desassossego trazido pela primeira - e até pela segunda - decisão do Eurogrupo quanto aos depósitos nos bancos de Chipre. Três momentos agudos da crise europeia que ilustram outros tantos riscos. O risco do paradigma imperial e da "domesticação-colonização" das periferias. O risco da racionalização e vulgarização dos argumentos populistas e dos correspondentes ressentimentos xenófobos. O risco da "nacionalização" dos patamares de confiança económica e suas consabidas consequências.

A crise exige medidas duras, medidas austeras. A crise exige mesmo de alguns povos e Estados sacrifícios que não pode nem tem de exigir de outros. Mas a crise não pode nunca justificar o atravessamento do limiar da humilhação. Ou, em linguagem menos humana e mais estatal, da subjugação. Já aqui escrevi e volto a escrever: "A história dos povos europeus - com os seus insucessos fratricidas - e a história da União Europeia - com o seu sucesso precário - ensinam, de há muito, que o mandamento mais útil é o "não humilharás"."»

 

Paulo Rangel, Público

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publicado às 14:35






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