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O antro de corrupção

por Tiago Moreira Ramalho, em 15.06.13

Trabalhadora da ERT chorosa com o encerramento da cadeia. «Cortesia» do Guardian.

 

1. O recente encerramento da televisão nacional grega foi pretexto assaz razoável para um conjunto de reflexões sobre tudo isto. Por conveniência, comecemos por enunciar o que aconteceu. O governo grego decidiu, quase de surpresa, sem debate público ou pré-aviso razoável, encerrar a cadeia ERT (a homóloga da RTP, se quisermos). Todas as televisões e rádios públicas ficaram automaticamente sem sinal. No seguimento do sucedido, e das expectáveis manifestações de repúdio, quando não de simples perplexidade, o governo veio a terreiro (é como se diz) dar conta que a cadeia pública tinha de fechar por ser um «antro de desperdício» e porque enquanto os cidadãos gregos faziam sacrifícios, não poderia haver «vacas sagradas».

2. A forma como recebemos as notícias cá foi tristemente pobre. Digo isto porque o enfoque dado pelos jornalistas portugueses ao facto de 2500 empregos estarem em risco foi completamente desajustado. Uma cadeia de televisão pública não é o mesmo que um parque industrial. O valor acrescentado de um serviço público de televisão está longe de ser comparável ao de uma central de produção de polpa de tomate; por isso, a forma como o tratamos não pode ser a da velha lógica do produto perdido e do desemprego gerado. Aquilo que está realmente em causa, e os jornalistas deveriam ser os primeiros a apontá-lo, é o bom funcionamento da democracia grega, que por estes dias já vai pela hora da morte. O serviço nacional de televisão e rádio acaba tendo uma capacidade rara para manter, ainda que fracamente, alguns tecidos que unem a sociedade. Além disso, há o escrutínio da actividade política, tão necessário em tempos de calamidade, e que facilmente se esquece no sector privado, quando as vacas, sagradas ou não, são menos gordas. Não será por acaso que não há nenhum país na União Europeia sem serviço público de televisão.

3. Voltando às bordas do mar Egeu, é também relevante a forma como todo o processo foi conduzido. E aqui entramos num problema mais sério, mais fundo, que é o do voluntarismo com que uma classe política se submete à sua própria humilhação. (Sim, quando falamos de um acontecimento destes, falamos de uma humilhação.) Note-se que o governo grego não explicou ao povo que era obrigado a encerrar o serviço pela falta de dinheiro, isto é, que não queria, mas que tinha de o fazer. Muito pelo contrário. O ministro das finanças grego falou abertamente em controlo de desperdícios e corrupção, e no fim de «vacas sagradas». Significa isto que a classe política grega abraçou a causa, ou assumiu publicamente que a abraçava. Mais do que cumprir aquilo a que é obrigado, o governo grego defende as virtudes destes disparates monstruosos. Trata-se de uma espécie de manifestação da Síndrome de Estocolmo, a qual leva às últimas instâncias a ideia de uma humilhação que deixa de ser imposta.

4. Felizmente, nem todos enlouquecemos. Claro que os gregos já estiveram mais sãos, mas depois do espectáculo de sinal fechado, já há quem pondere o regresso parcial ou total do serviço. A coligação parece ter ficado especialmente afectada. Os trabalhadores da ERT continuaram nas instalações e, por sua própria iniciativa, mantiveram o serviço aberto via Internet. A União Europeia de Radiofusão garantiu a transmissão via satélite do canal noticioso. Por todo o lado, têm surgido apelos para a reabertura do serviço. Pode ser, por tudo isto, que o serviço regresse rapidamente. De qualquer modo, fica o precedente perigoso de como facilmente se abdica de uma parte tão relevante da vida de um país e de como surge até um especial voluntarismo para o fazer. Tentado escapar-me a um reductio ad hitlerum, é bom lembrar que algo assim só aconteceu uma vez à Grécia no passado: em 1941, quando os Nazis encerraram o serviço público de rádio no seguimento da ocupação.

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publicado às 15:41


6 comentários

De Tiago Moreira Ramalho a 16.06.2013 às 22:53

Obrigado, Fernando. É um interessante testemunho.

Cumprimentos

De J. Saro a 17.06.2013 às 20:07

Sinceramente, discordo no geral da maioria da argumentação usada contra este fecho. Parece-me um problema de forma (uma decisão repentina), mas falar num problema democrático (excluindo o problema da forma) parece-me igualmente absurdo.

O ponto 2 até pode-se comparar com a argumentação de muitos movimentos anti-leis progressistas (casamento entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo) - até ao primeiro país a mudar a lei, não existia nenhum que permitisse. Podes dizer que esta área é distinta porque a liberdade de expressão não pode ser posta em causa. Mas qual a garantia (teoricamente) de uma televisão pública ser o garante da liberdade de expressão?

Por esta lógica, daqui a uns anitos quando já ninguém usar a televisão/rádio como é ela hoje (na verdade, ontem) usada, tem-se defender a permanência ou a proliferação pelos mil e uns novos meios da RTP.

"(...) O serviço nacional de televisão e rádio acaba tendo uma capacidade rara para manter, ainda que fracamente, alguns tecidos que unem a sociedade. Além disso, há o escrutínio da actividade política, tão necessário em tempos de calamidade, e que facilmente se esquece no sector privado, quando as vacas, sagradas ou não, são menos gordas. Não será por acaso que não há nenhum país na União Europeia sem serviço público de televisão. (...)"

Mais uma vez, não compreendo onde a RTP (sim, falo da RTP, que a ERT lá eu conheço) tem essa capacidade rara e onde é um media que se destaca dos outros em relação ao escrutínio da actividade política (conhecemos a mesma RTP). E não me parece que haja uma correlação sequer entre o argumento e a última frase.

A televisão pública deve ser o debate político nacional mais disfuncional na última década.

De Tiago Moreira Ramalho a 17.06.2013 às 23:03

J. Saro,

Relativamente ao ponto 2, dou-lhe uma razão «parcial». É verdade que o argumento «não se deve fazer porque os outros não fazem» está longe de ser sério. No entanto, quando nós achamos que tal coisa faz sentido racionalmente, sustentar a conclusão na experiência é do mais natural que há. O necessário é sempre ver se a experiência corrobora uma boa reflexão ou não.

Pegando, por isso, na reflexão, analisando se é decente ou nem por isso, há duas ou três coisas a dizer. Felizmente em Portugal (nem sei muito bem como) todas as televisões têm regras próximas no que respeita à informação. No entanto, uma coisa é certa: quando uma televisão é pública, a população tem uma influência política, e não meramente comercial, sobre ela. Uma televisão pública não funciona apenas segundo a lógica do ganho de audiências e isso encerra um valor precioso. Imagine, por hipótese, talvez não tão remota, que uma estação privada é comprada por uma pessoa ou empresa especialmente problemática (por exemplo, a filha de algum distinto ditador). Uma televisão pública permitirá manter um controlo político (e media são actores políticos de primeira importância), por ténue que seja, para que haja uma ilhota de decência.

Quando falo do factor de coesão, falo de uma coisa simples: pense na nossa forma de falar e na forma como os meios de comunicação a aproximaram. Dir-me-á que uma televisão privada faria o mesmo. É certo, mas isto é só um exemplo do passado. O importante é que a televisão pública, de novo, tem uma forte pressão para dar atenção ao país e não a uma região singular. Não será por acaso que apenas na RTP temos programas do tipo 'Portugal em Directo'.

Pegando na última frase, o que queria defender simplesmente é que uma coisa como a actual só aconteceu num momento de imposição externa e violenta (a Nazi). Agora, são os próprios governantes quem assume a defesa da causa. Tudo tem que ver com a humilhação auto-imposta.

De J. Saro a 19.06.2013 às 19:26

A argumentação de que não estar dependente das audiências (ou do lucro) ser precioso não me convence muito. Não sendo um seguidor frequente dos canais generalistas (o que não significa que não conheça a generalidade dos conteúdos), mas não vejo em que a RTP1 tenha algo de precioso face à SIC e à TVI. Basicamente, tentam replicar a maior parte da programação com "mais etiqueta". Já defender um conceito como boa parte da RTP2 o é (aberta à sociedade) ou uma programação totalmente distinta da concorrência parece-me a única forma de defender a televisão pública. Infelizmente, há 10 anos que se discute e defende-se assim... mas onde está essa televisão pública (não sei se concordo com a mesma, mas já era alguma coisa para uma coisa que não se pode queixar de fundos)? Aliás, quem tem sempre desbravado caminho no que toca a novos canais são os privados (senão estou em erro, até a SIC Gold antes da RTPm) e com menos meios (falo decore, mas parece-me que vou acertar por muito mesmo).

A última frase é da citação que coloquei em que acho que não há relação entre o argumento e a conclusão dessa última. Quando falei do tal argumento de que nenhum país prescinde da sua televisão pública ignora-se que a televisão pública nasceu noutra era em que não existiam outras operadoras (estavam a preencher um vazio). Numa era bem diferente e, no caso português, não foi por uma necessidade de liberdade de expressão, certamente. Penso que há uma espécie de medo irracional perante o que pode acontecer sem um canal generalista público como se a sua liberdade de informação não tivesse tantos condicionalismos (diferentes é certo) como as privadas.

Nota: Porque deixou de haver um jornal público, então? Se existisse, o panorama do jornal de papel mudava para melhor?

De Tiago Moreira Ramalho a 20.06.2013 às 15:07

J. Saro,

É importante perceber que o meu argumento funciona no plano teórico. Isto é, até é possível que as televisões privadas portuguesas não sejam muito más (os serviços noticiosos, em geral, tendem para a imparcialidade, por muito que se diga o contrário). O meu ponto é que um serviço público em democracia é útil porque é fácil que os serviços privados se tornem meios propagandísticos, da mesma forma que o serviço público se pode tornar um num regime não-democrático (ou numa «democracia» pouco saudável). Uma televisão é uma arma poderosa, e se não sou contra a iniciativa privada nela (longe de mim), a verdade é que me dá segurança a ideia de haver pelo menos um canal público (diria mesmo que um canal público é uma «regra de ouro»: chega e sobra). Poderá ser, sem dúvida, um medo irracional - há tanto em política que nasce disto e disto apenas...

Ainda que não tenha compreendido a que última frase se referia, acabei por lhe responder a essa parte logo no início.

Quanto à ideia de um jornal público, faz-me repensar todo o argumento. Ainda que haja a Lusa, e que o peso (e dificuldade de criação) de um jornal não se possa comparar ao de uma TV, confesso que preciso de pensar melhor.

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