Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Matraquilhos

por Tiago Moreira Ramalho, em 27.05.13

O sofrimento dos últimos dias tem-me lembrado o meu desprezo fundo por esse corolário da civilização do espectáculo que é o futebol. Em torno de mim, que saltito airoso por entre as derrotas e vitórias de uns e outros, e que só gastei alguma vez dinheiro num jornal desportivo porque o Record, aqui há uns anos, tinha um monopólio do Benfica em fascículos que muito atraiu a família; em torno de mim, dizia, sucedem-se as típicas fúrias alegres ou tristes, as babinhas raivosas espumadas nas redes sociais, a choradeira indómita de quem gosta mesmo muito daquele clube, pá. Da observação dessas expressões estranhas e a meu ver excêntricas, porque a bitola do banal somos nós que a definimos (e à nossa imagem, de preferência), nasceu-me, contudo, um franco interesse no grafismo colorido desta manifestação do absurdo. Porque entendamo-nos: nada daquilo faz qualquer sentido (espero que não me levem a mal). O adepto típico pertence a um clube (pagam e tudo) com o qual nem tem especial relação de proximidade (o bom serrano é com facilidade um benfiquista ferrenho) e sofre vigorosamente com as peripécias de uma equipa que vive numa espécie de estratosfera, longe de todos nós. Numa base semanal, o adepto apaixonado gasta algumas dezenas ou centenas de euros para assistir aos jogos, acompanha com cuidado as tabelas classificativas, contabiliza rigorosamente os golos marcados e sofridos e faz ainda contas até ao final da temporada para ver se dá. Se não dá, o adepto chora, grita, esperneia porque não deu; queixa-te das táticas e das técnicas e das estratégias; vilipendia os árbitros, os treinadores, os presidentes e os jogadores; maldiz o mundo, a vida e diz ao filho para se esforçar mais nos treinos, para depois ir para a equipa e ganhar isto tudo, porque ele, aquele rapaz, é que vai ser o próximo Eusébio, oiçam o que vos digo. Isto durante cerca de uma semana, talvez duas. Depois tudo acalma, a vida habitual regressa e começa a pensar-se na época seguinte. Como se estivéssemos todos lá na montanha a ver Sísifo mexer o pedregulho. Há aqui uma bonita (quem sabe útil) metáfora para esta brincadeira. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:40






Pesquisar

Pesquisar no Blog