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Direitos humanos

por Bruno Vieira Amaral, em 22.05.13

Aos portugueses que se perguntam o que andarão os deputados da maioria a fazer enquanto o país esfola os joelhos na crise recomendo a consulta de um documento imprescindível e de proveitosa leitura que ostenta o enigmático título «Projecto de Resolução Nº 637/XII». Logo abaixo, explica-se ao povo ignaro que o documento mais não é do que uma «recomendação relativa à adoção por entidades públicas e privadas da expressão universalista para referenciar os direitos humanos», sentença que seria auto-evidente se não fosse completamente incompreensível. As páginas seguintes não resolvem de imediato o mistério do sentido deste texto críptico. A técnica do suspense é utilizada com mestria pelos deputados, que apimentam essa estratégia narrativa com a sugestiva repetição da palavra «paradigma», que aparece quatro vezes e nem sempre nas melhores condições físicas e semânticas. Não é de crer que até ao final da legislatura o paradigma volte a ecoar tão retumbantemente nas galerias da Assembleia. Quem se dedicar à leitura do documento verá que este foi redigido naquela espécie de sânscrito universitário que produz estes cagalhões parlamentares: «Neste enquadramento, sobrevindo ainda a responsabilidade de diálogo e de rememoração intergeracional que nos incumbe, assumindo que os projetos e discursos políticos e de cidadania, seja sobre questões humanas e sociais, seja sobre questões de macroeconomia, que dominam no contexto atual, devem evidenciar que as políticas corporalizadas por assimilação das perspetivas implícitas à diversidade são um fator determinante para o progresso humano, político, económico e social das sociedades.» Ámen. Para cúmulo, enquanto o país desaba, é reconfortante saber que os deputados do PSD e do CDS tudo farão para que a bancarrota não nos descubra de linguística pelos joelhos e, «porque a linguagem representa uma realidade criada por indivíduos num determinado espaço e num determinado tempo», recomendam que as entidades oficiais substituam a «expressão Direitos do Homem pela expressão Direitos Humanos». Já sabíamos que os nossos liberais não passam de socialistas que moravam mais perto da sede do PSD local, mas descobrir que os deputados da direita são os arietes do politicamente correcto já é abuso. Diria mesmo, se o assunto não fosse tão sério, que isto é caso para dar cabo do paradigma de qualquer um.

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publicado às 10:18






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