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Gorda é a tua mãe

por Frederico V Gama, em 18.05.13

Hoje fui comprar pão, alfaces e jornais para a manhã de sábado não correr tão mal, e fui atingido pela capa do Jornal de Notícias a avisar-me que metade dos portugueses têm excesso de peso. A notícia comoveu-me durante uma boa meia hora, de modo que, sentado na esplanada, comecei a reparar nos portugueses. Não me pareceu que, enfim, metade deles fossem excessivamente gordos, anafados, com peso excessivo. Mas aqui há uma tropelia que começa a ameaçar-nos diariamente e que constitui uma espécie de ameaça velada contra o nosso bem estar mental, e eu passo a explicar: não há puta de uma conversa de circunstância em que não venha alguém a sermonear sobre como está mais gordo, como eu estou mais magro, como se passou a fazer ginástica ou a frequentar uma loja de produtos biológicos, como se está um harmónio que aumenta e baixa de peso. Na semana passada, o Vítor, um alpicastrense que já não via há dois anos, cumprimentou-me efusivamente e com aquele ar cretino que têm as pessoas que vêm do ginásio às sete da tarde antes de comerem a sua dose diária de cereais sem açúcar e sopa de abóbora sem batata: “Ó Frederico, caralho, estás mais gordo!” Eu respondi com a amabilidade de um velho conhecido diante das obras da câmara local: “E tu tens alguma coisa a ver com isso?” Reparem que, mesmo sendo um rural, não utilizei a frase que nestas circunstâncias seria a mais indicada (qualquer coisa como “e tu ó meu filho da puta deves ter muito a ver com isso deves”, tudo seguido e sem pontuação), limitando-me ao grau zero do insulto, o que me impediu de esclarecer que, de facto, tinha emagrecido cerca de dez quilos nos últimos meses, graças a sacrifícios letais e a um ódio crescente contra os meus semelhantes.

De modo que não me pareceu que metade dos meus concidadãos tivessem excesso de peso, mas o “Jornal de Notícias” esclarece-me, de longe, que temos de ir ao nutricionista e ao ginásio e ao confessionário e ao psicólogo e aos gordos anónimos e aos revisionistas sem remissão e aos economistas católicos e aos macrobióticos invertidos e à ervanária e à missa e às prateleiras dos produtos saudáveis, tudo em busca de salvação, porque é preciso emagrecer, sobretudo fazer exercício, deixar de fumar, ter uma vida saudável e não exagerar na cafeína (os meus concidadãos podem ser diferentes dos do JN, há sempre essa hipótese, mas um dia eu gostava de fazer um raid pela redacção do vetusto jornal das províncias do norte). Os nutricionistas, a Judite de Sousa, a Cinha Jardim (acabo de saber, ao folhear uma “Vip”, ou “Flash”, já não me lembro, que tem de emagrecer cinco quilos), o meu vizinho de cima e uma prima do Fundão que era hippie, acham todos, em coro, que somos todos gordos. Eu preciso de emagrecer duzentos e vinte gramas para estar nos padrões indicados para qualquer beirão da nova geração, mas não mereço essa grandiosa manchete do JN, foda-se, estamos todos com excesso de peso, o presidente da República é um caniço, o Tó Zé Seguro emagreceu desde que saiu de Penamacor e a senhora da biblioteca que vigia a consulta de periódicos decidiu que tinha de ir diminuir o tamanho dos glúteos. Este é o retrato do país: um país de 50% de gordos. Deixem de comer rissóis, pode ser que sejam mais felizes.

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publicado às 16:03


1 comentário

De Anónimo a 24.08.2013 às 17:01

Gostei do seu texto, óptimo sentido de humor!

Apenas uma correcção, se me permite: o Jornal de Notícias já não é do Norte.

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