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A importância de ser Bruno

por Rui Passos Rocha, em 18.05.13
Como o Tiago demonstrou há dias, e eu aqui quero reforçar, a Juventude Atentadista faz claque pelo sucesso deste Bruno Vieira Amaral. Não que haja outro, de que discordemos, mas porque o Bruno pode um dia destes decidir moraisarmentar e aí, seja eu saudável, pelo menos um dos membros da JA arrumará os pompons.

Do guia que o Bruno acaba de publicar, para além de uma lista de obras e personagens a conhecer ou revisitar, agora com lentes decentes, retiro sobretudo a importância da boa observação. Não só me apercebo da preguiça com que habitualmente interpreto pessoas inventadas, apesar de mais expostas e disponíveis do que as pessoas reais, mas também do pouco esforço que dedico às que têm pele, pontos negros e osso. A isso não são alheias as minhas preocupações e afazeres, mas a concentração que quero tentar é também desejo de que outros como eu retirem fome de ficção deste livro.

O Bruno não sabe, mas fez-me reler o discurso de David Foster Wallace a estudantes universitários, em que explicou que poderão extrair uma forma importante de conhecimento da mera observação dos comportamentos dos outros e da formulação de hipóteses de causas para esses comportamentos. Foster Wallace foi tão perspicaz que ainda hoje é citado quando se debate os prós e contras da empatia. Sair de si e entrar no outro, só para voltar diferente, é algo que o Bruno descreveu bem na apresentação que fez do livro em Lisboa.

Ele também não sabe, mas fez-me voltar de maneira diferente ao livro que estava a ler, Pedro Páramo de Juan Rulfo. Fez-me reparar numa personagem secundária, o padre Rentería, que numa recente encarnação foi um trôpego avançado do clube português mais colombiano e que, no livro, ousa fazer de Deus e não dá os últimos sacramentos a um morto que lhe fez mal em vida. Com isso Rentería ganha uma crise existencial e a aldeia de Colima ganha uma torrente de almas penadas, que mais tarde matarão de desesperança Juan Preciado, que ali havia chegado na procura do seu falecido pai, Pedro Páramo. Fez-me também olhar de outro modo Pedro Páramo, o assassino que masca e deita fora mulheres mas sofre de um amor não correspondido por uma viúva que, nas serenas palavras de João Galamba, endoidou.

O que peço a um artista é que me abra os olhos. E o que o Bruno faz neste guia, o que Foster Wallace fez antes no discurso de 2005, é e foi alertar para a complexidade dos seres humanos, pedindo um esforço de cada um nesse entendimento. Parece-me um propósito louvável.

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publicado às 14:26






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