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E o Lobo Antunes, pá?

por Bruno Vieira Amaral, em 11.05.13

 

Há seis anos que escrevo regularmente sobre livros. Não é muito tempo. Há quem escreva sobre livros há décadas. Mas é o tempo suficiente para reparar num fenómeno curioso. Raramente se vê um escritor a manifestar-se pública e directamente em relação às críticas aos seus livros. Por uma questão de decoro, essa atitude é compreensível quando a crítica é positiva. Quando a crítica é negativa, o facto de o autor visado nunca se referir a ela directamente é uma vã tentativa de passar olimpicamente ao lado, como se o desprezo, o ignorar o assunto, retirasse o valor intrínseco à crítica, a condenasse a um limbo, a ser uma espécie de vapor que, ao entrar em contacto com o mundo, estaria condenado a desaparecer. E as coisas não se passam assim. A crítica pode ter perdido relevância mas se há pessoas atentas ao que os críticos escrevem são os autores. Estes podem evitar directas referências aos críticos – seja com o valoroso intuito de não alimentar polémicas, seja para retirar importância pública àquilo a que eles intimamente dão valor – mas eles sabem que nós sabemos que eles lêem as críticas. E dão-lhes tanto valor que alguns chegam a ligar para as redacções a queixar-se das críticas negativas, outros queixam-se por não terem tido uma crítica que fosse neste ou naquele jornal, outros, magoados com o que consideram ser uma injusta machadada, murmuram em jantares e encontros ocasionais contra os pérfidos perpetradores do crítico crime. Não é raro que se atribuam ao desgraçado do crítico motivações negras, problemas psiquiátricos, paneleirices. Isto acontece. O que é raro acontecer é um autor não concordar com uma crítica, descer do seu olimpo de autor e vir cá abaixo trocar dois dedos de conversa com o crítico. É sempre melhor, mais obscuro, mais conspirativo, insinuar e depois sorrir, que isto nunca se sabe quando precisamos uns dos outros. Ora, hoje, dia 11 de Maio de 2013, tive o privilégio e a honra suprema de ver o meu primeiro livro alvo de uma crítica no afamado semanário Expresso. Respeito e estimo o autor da crítica, José Mário Silva, pessoa que leva muito a sério o seu trabalho. Eu, BVA, talvez não me leve demasiado a sério (José Mário Silva acha que a “desconcertante flexibilidade” do meu livro é denunciadora desse facto), mas também levo muito a sério o meu trabalho. E por esse motivo, porque somos duas pessoas que levamos muito a sério o nosso trabalho, tenho a dizer que a crítica de José Mário Silva é perfeita. Melhor, seria perfeita se o livro tivesse quatro páginas e essas quatro páginas fossem as do índice (acrescentemos, por caridade argumentativa, as da introdução). Acontece que este livro tem mais algumas páginas para além do índice. A estas, José Mário Silva dedica o último parágrafo onde me condecora com as medalhas da “argúcia na análise e o rasgo estilístico”. E acrescenta, conquistando o meu reconhecimento eterno, “Bruno Vieira Amaral resgata personagens ao respetivo ‘habitat’ literário e mostra-nos, em prosa vívida, concisa e por vezes exaltante, todas as suas grandezas e defeitos. Ou seja, toda a sua humanidade.” Como se vê, a 98% do livro (os textos em que analiso, interpreto e, de certa forma, recrio as personagens que escolhi) José Mário Silva dedica 20% da sua crítica. O restante é o primeiro parágrafo informativo da praxe e mais dois parágrafos sobre os critérios de escolha das personagens em que o pensamento de José Mário Silva se resume a uma ideia: e o Lobo Antunes, pá? Mea culpa. Numa 2ª edição, se a houver, deste livro, que tem por título Guia Para 50 Personagens da Ficção Portuguesa, pedirei à editora que o título seja alterado para Guia Para 50 Personagens da Ficção Portuguesa O Qual Acintosamente Não Inclui Qualquer Personagem de Lobo Antunes. Repare-se que o livro não tem o título Guia Para as 50 Melhores Personagens da Ficção Portuguesa, nem sequer o título de Guia Para 50 Personagens dos Melhores Romancistas Portugueses. Repare-se também que escrevo, na introdução (são aquelas páginas que se seguem ao índice), o seguinte: “No entanto, em nenhum momento este livro pretende estabelecer um ranking de personagens e, muito menos, de escritores.” Ou seja, eu escolhi as personagens sobre as quais achei que tinha alguma coisa para dizer. Por um motivo que não vislumbro, José Mário Silva acha que eu devia ter alguma coisa para dizer sobre alguma personagem de Lobo Antunes e que, não tendo, deveria ainda assim ter incluído algum porque, enfim, quer-se dizer, o Lobo Antunes. Diz José Mário Silva que isto “assemelha-se mais a uma provocação do que a um esquecimento.” E di-lo sem duvidar da “honestidade intelectual de quem a fez.” Caramba, eu diria que isto se assemelha a pôr em causa a honestidade intelectual de alguém ao mesmo tempo que se jura o contrário. Tenho a certeza que isto tem um nome, talvez o de uma figura de estilo, não sei. Só quero confirmar que a não inclusão de uma personagem de Lobo Antunes não se deve a um esquecimento. Nisso, José Mário Silva tem razão. Não foi como se eu tivesse acordado na manhã depois de ter entregado o livro e dissesse: “Foda-se, esqueci-me do Lobo Antunes.” Se o José Mário Silva acha que a única alternativa ao esquecimento é a provocação então lembre-se disso quando determinado livro não merecer a honra de uma recensão no Expresso: ou alguém se esqueceu ou alguém está a provocar. Parece que José Mário Silva também não gostou que, afinal, as 50 personagens sejam 51, perdão, 55, uma informação que maldosamente só é revelada ao leitor...no índice. Passo a explicar esta “desconcertante flexibilidade” que significa que não me levo demasiado a sério: Léah, a 51ª personagem, foi incluída neste livro porque, ainda no início, o Manuel Fonseca, editor da Guerra e Paz, um apaixonado pela personagem criada por José Rodrigues Miguéis, disse-me que era uma personagem fascinante. Como não tinha outras personagens de contos, decidi, por uma questão de coerência, fazer de Léah (que é, de facto, uma personagem apaixonante) uma espécie de bonus track. Quanto aos casais, a explicação também é relativamente simples: havia personagens das quais me era muito difícil falar sem estar constantemente a referir a outra metade do casal. A questão colocou-se desta forma: nesses casos contabilizo uma ou duas personagens? Decidi que os casais seriam apenas uma personagem, abrindo dessa forma espaço para outras. Coisas simples, como se vê, e sem qualquer mistério numa obra com “estas características.” E estas características são as de um livro cuja ideia é minha, que não é uma antologia, que não é uma enciclopédia nem um dicionário (e que inspirando-se no livro de Manguel e Guadalupi é de uma natureza diferente) e cuja justificação para a sua existência está, não no critério de escolha das personagens (discutível, é certo), mas nas qualidades (atente-se no plural, quero dizer, características) dos textos sobre as personagens que, quanto a mim, são a melhor justificação para a inclusão destas personagens e não de outras. José Mário Silva acha que não. Talvez ele esteja a confundir as características deste livro (que é um livro de autor e não uma obra de referência) com antologias de poesia ou quejandos que, no nosso país, geram sempre tão saborosas polémicas. Sobre esses livros é que não se pode discutir os textos em si (já existentes) e o único objecto da crítica deve ser precisamente o critério. Nesses casos, o crítico nem precisa de ler mais do que o índice para escrever a sua recensão. Tenho pena que o José Mário Silva, tendo lido mais do que o índice, tenha reduzido a sua crítica praticamente à questão do critério da escolha das personagens – que em nenhum momento se afirma como universal ou definitiva – talvez na ânsia de uma dessas paroquiais, fúteis e antológicas discussões sobre quem está fora e quem está dentro. Preferiu destacar a ausência de Lobo Antunes, concluindo a recensão com um elogio banal e até, tendo em conta o que escreveu antes, condescendente. Parafraseando um professor meu, o que não está no meu livro daria para encher várias bibliotecas. Neste caso, ainda só deu para uma recensão no Expresso, mas não há razões para desespero porque o livro também só saiu há duas semanas. Gostaria que numa próxima oportunidade a recensão fosse sobre o que eu escrevi. Eu sei que é pedir muito mas, citando o saudoso José Torres, “deixem-nos sonhar.”

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publicado às 18:37


3 comentários

De bolaseletras a 14.05.2013 às 22:29

Não querendo parecer graxista (até porque nada ganho com isso), já me convenceste a comprar o livro (puta de ideia, excelente mesmo). Desculpa o tratamento por tu, mas os vocês deixo para as personagens desse eterno candidato a prémio Nobel cujos livros nunca consegui terminar. Quanto ao José Mário é deixá-lo andar, pode ser que um dia saia da zona de conforto e escreva um livrito...

De José a 15.05.2013 às 12:26

"Quanto ao José Mário é deixá-lo andar, pode ser que um dia saia da zona de conforto e escreva um livrito..."
para seu conhecimento: http://bibliotecariodebabel.com/sobre-o-autor/.

De Antonio Almeida a 15.05.2013 às 20:43

Dou a mão á palmatória, estava mesmo convencido que era só crítico. As minhas desculpas, mas a aversão pelo lobo Antunes falou mais alto.

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